Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia. Um novo levantamento do instituto YouTrend para a Sky TG24 revela uma fotografia política que pode transformar o referendo sobre a reforma Nordio num efeito bumerangue para a maioria que governa em Roma. Segundo a pesquisa, os campos do Sim e do Não ficariam em equilíbrio apenas com uma participação elevada. Mas se a afluência ficar significativamente abaixo dos 50% dos eleitores convocados, o Não subiria para 53,1% — um giro preocupante para quem dá o pleito como prioridade.
O inquérito, que indica um margem de erro de 3,4%, inverte um cenário que até há poucas semanas parecia favorável à reforma. A velocidade dessa mudança é um sinal de alerta para a coalizão liderada por Giorgia Meloni, que agora vê a iniciativa esvaziar-se de um debate técnico para converter-se em plebiscito sobre lideranças.
Na prática, a pressão permanente contra a magistratura — e a disposição da própria presidente do Conselho em encabeçar essa batalha — parece ter compactado o bloco do Não. A campanha de desgaste colocou juízes no foco constante da comunicação governista, e para parte do eleitorado o referendo deixou de ser um exame pontual da legislação e passou a ser um veredito global sobre a atuação da maioria.
Essa centralidade de Meloni tem custos políticos concretos. É compreensível que a líder do Executivo, com elevada popularidade pessoal e com o partido Fratelli d’Italia na casa dos 30%, se exponha; porém, a sobrerresponsabilização transforma-a no alvo e, ao mesmo tempo, no espelho da reforma — uma sobreposição que reduz os âmbitos de manobra caso o resultado seja apertado ou adverso.
Ao mesmo tempo, os aliados não acompanharam esse nível de exposição. Na prática, a coesão da maioria existe no papel, mas no terreno o empenho de Forza Italia e da Lega tem sido intermitente: presença territorial esparsa, comunicação morna e quadros empenhados noutras prioridades durante as semanas decisivas. O discurso adotado também mostra distância: fala-se de “riforma del governo” ou de “iniziativa di Palazzo Chigi” — expressões que associam o texto a Meloni em vez de apresentá-lo como uma batalha conjunta do centro-direita.
Essa assimetria explica o temor do núcleo duro do governo: se a campanha permanecer desequilibrada, qualquer desfecho repercutirá diretamente sobre a primeira-ministra. Uma vitória por margem estreita ou uma derrota serão lidas automaticamente como um redimensionamento de autoridade. Para figuras como Matteo Salvini e Antonio Tajani, um resultado adverso da líder significaria negociar com mais força as fatias do próximo tabuleiro eleitoral — cadeiras, candidaturas e recursos — quando chegar a hora das eleições nacionais.
Como repórter atento à arquitetura das decisões públicas, observo que este referendo funciona como um teste sobre os alicerces da comunicação política: a construção de direitos e a ponte entre instituições e sociedade tornam-se frágeis quando a batalha passa a ser sobre quem exerce mais poder do que sobre o conteúdo da norma. Se o objetivo do governo era consolidar uma reforma, o risco hoje é transformar o processo numa avaliação pessoal — e, em política, o peso da caneta costuma retornar ao autor em forma de responsabilidade eleitoral.






















