Eros Ramazzotti foi o centro de um momento que, mais do que um contratempo técnico, funcionou como um pequeno espelho do que o espetáculo ao vivo representa: imprevisão, humanidade e charme. Na terceira noite do Sanremo 2026, o cantor italiano subiu ao palco como superospite ao lado da estrela internacional Alicia Keys para interpretar “L’Aurora”. Tudo parecia alinhado para um dueto memorável — até que, nas primeiras notas, a performance foi interrompida por um problema nos fones da cantora.
Ao piano, Alicia Keys chegou a dizer em inglês: “Stop, stop. I can’t hear in my headphones”, que rapidamente se traduziu na atmosfera do teatro: silêncio, preocupação técnica e depois risos contidos. Ao seu lado, Eros Ramazzotti buscou aliviar a tensão com ironia refinada: “Il bello della diretta” — “o bonito da transmissão ao vivo”. Era uma pequena quebra do roteiro, um reframe da realidade que todo festival traz em sua própria cartografia.
O apresentador Carlo Conti interveio de forma cirúrgica, anunciando um intervalo comercial para que os técnicos pudessem restaurar o som. Foi nesse instante, já fora do tomar oficial, que o chamado fuorionda ganhou vida. Eros aproveitou os minutos e transformou o backstage em palco secundário: brincou sobre a presença do piano — “Ma il pianoforte almeno c’è?” — e, com a sagacidade de quem conhece bem o público, aproximou-se dos cabos e dos equipamentos, apontando para um fio solto com um comentário mordaz sobre o investimento no festival: “Vorrei farvi vedere cosa c’è qui dietro, hanno speso miliardi e poi c’è un cavo…”
Conti, com bom humor, fez o papel do maestro que modera a cena: “Non toccare niente”. Ele também desviou a leve tensão com uma piada dirigida a Eros: “Che figura… mi sono scusato con Alicia eh”. E, evocando a teatralidade do momento, acrescentou que teria ‘provocado’ o imprevisto para manter o cantor por mais tempo no palco — uma ficção cômica que só reforçou a química entre apresentador e convidado.
O que poderia ter sido apenas um episódio técnico tornou-se, então, uma peça de micro-teatro: Eros Ramazzotti cantou, brincou, e envolveu a plateia do Ariston com sua ironia e cançonetas improvisadas. Quando o som foi restabelecido, o dueto com Alicia Keys foi realizado sem maiores problemas, mas o que permanece é essa imagem curiosa — o backstage que se revela, o roteiro rompido, e o artista que transforma um incidente em espetáculo.
Como analista cultural, vejo nesse fragmento não só a essência do ao vivo, mas também um pequeno retrato do zeitgeist: onde até um fio solto pode se tornar metáfora. O episódio no Sanremo 2026 foi, portanto, mais do que um fuorionda técnico; foi um lembrete de que o entretenimento, quando verdadeiro, dialoga com a falha humana e a improvisação — e, assim, reflete um pouco de nós mesmos.






















