Por Chiara Lombardi — No palco do Teatro Ariston, na noite de 26 de fevereiro, a performance de Alicia Keys ao lado de Eros Ramazzotti transformou-se em um pequeno espelho do nosso tempo: uma celebração musical que, por trás da emoção, revelou o roteiro oculto da pronúncia e da mediação linguística no show global. A dupla apresentou o tema “L’Aurora”, e, embora a cantora tenha mostrado uma ótima familiaridade com o texto em italiano, um vídeo viral revelou um detalhe que chamou mais atenção nas redes — o emprego de um gobbo com transliteração fonética.
Nas imagens que circulam online, é possível ver as palavras desenhadas de forma a reproduzir a sonoridade do italiano para um falante de inglês: linhas como “Sah-Rah, Sah-Rah, L’Ow-Roh-Rah” aparecem no teleprompter. Essa solução técnica — um suporte que não apenas exibe o texto, mas o transforma em guia fonético — não é novidade no grande espetáculo internacional, mas atua como metáfora de como a indústria cultural cuida da legibilidade global sem apagar as marcas de origem do repertório. É o eco cultural que reframe a performance para uma audiência transnacional.
Imediatamente as redes traçaram um paralelo com o episódio que ocorreu semanas antes na abertura das Olimpíadas de Milão-Cortina 2026, quando Mariah Carey entoou “Nel Blu, dipinto di Blu” (“Volare”) auxiliada pelo mesmo recurso: no teleprompter, as sílabas apareciam sob forma fonética — “Voh-lah-reh, nel chay-lo een-fee-nee-toe…” — permitindo que a interpretação fluísse sem atropelos. Ambos os casos mostram a prática como solução elegante e discreta, uma forma de tradução performática que preserva o gesto musical e a conexão emocional com o público local.
Mas por que essa atenção? Porque o gobbo surge como símbolo de um tempo em que a imagem pública é cuidadosamente construída: é parte do figurino técnico que garante espetáculo sem ruídos. Para além do comentário superficial, vale perguntar: o que nos diz esse recurso sobre autoridade linguística, autenticidade e as expectativas das plateias contemporâneas? Alicia Keys, ao recorrer a essa ferramenta, oferece uma pequena lição sobre como o entretenimento global negocia identidade e compreensão — o que vemos no palco é também um reframe da realidade, uma tradução em tempo real entre línguas e audiências.
Em termos práticos, a apresentação foi calorosamente recebida pelo público do Ariston e pelos telespectadores, e o debate nas timelines ressalta que hoje o desempenho não se limita à voz: inclui estratégias técnicas, escolhas de produção e, claro, a narrativa que acompanha o artista. Se o teleprompter fonético vem para facilitar, ele também nos convida a olhar para além do tom: para as decisões culturais que moldam o que chamamos de autenticidade no palco global.
Imagem: cenas da performance no Ariston e frame do teleprompter com a transliteração fonética.






















