Bruxelas — Em um movimento calculado no tabuleiro das relações internacionais, a Comissão Europeia anunciou, em 27 de fevereiro de 2026, o início da aplicação provisória do acordo entre a União Europeia e os países do Mercosur (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, qualificou a decisão como expressão de resiliência e de uma Europa capaz de modelar seu próprio futuro.
O gatilho imediato para essa decisão foi a ratificação firmada por Buenos Aires e Montevidéu. Conforme antecipado pela presidente, a Comissão — autorizada pelos Estados-membros, ainda em janeiro, a aplicar provisoriamente o acordo a partir da primeira ratificação de um país do Mercosur — decidiu agora ativar o regime provisório, esperando que Brasil e Paraguai formalizem suas ratificações em breve. A iniciativa traduz a confiança recíproca entre as partes e a vontade política de dar operabilidade a um pacto de grande alcance geoeconômico.
Von der Leyen enfatizou o potencial material do acordo: a criação de um mercado integrado na ordem de 720 milhões de pessoas, a eliminação de bilhões em tarifas aduaneiras e a abertura de oportunidades concretas para pequenas e médias empresas europeias. Este conjunto de vantagens — lembrou a presidente — oferece à Europa um vantagem estratégica de primeiro movimento num contexto internacional cada vez mais competitivo, desde que esse potencial seja efetivamente concretizado em fluxos comerciais e investimentos.
Porém, a Presidência da Comissão sublinhou a natureza intrínsecamente temporária do ato: aplicação provisória significa que o acordo opera sob uma vigência limitada até a conclusão formal do processo interno da UE. Em conformidade com os Tratados, o fechamento definitivo só poderá ocorrer após a aprovação do Parlamento Europeu. Importa recordar que, após a decisão do Parlamento de remeter pontos da matéria ao Tribunal de Justiça da UE para exame de compatibilidade com os Tratados, a possibilidade de votação plenária ficou suspensa até o pronunciamento dos juízes de Luxemburgo.
Ao mesmo tempo, a Comissão declarou que manterá diálogo estreito e coordenação com as instituições europeias, os Estados-membros e as partes interessadas, garantindo um processo transparente e ordenado durante a aplicação provisória. É um gesto de gestão institucional que busca resguardar os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea: legitimação democrática interna e previsibilidade externa.
Do ponto de vista geopolítico, a ativação provisória do acordo representa um movimento decisivo no tabuleiro global. Ao consolidar vínculos com a América do Sul, a UE projeta influência econômica e normativa numa região estratégica, contribuindo para o redesenho de fronteiras invisíveis de poder e influência. Em termos práticos, o pacto oferece à Europa vias complementares para diversificar cadeias de suprimento e ampliar espaços comerciais, enquanto reforça — sob uma ótica de longo prazo — a estabilidade das relações transatlânticas.
Como analista, vejo essa iniciativa como um lance de alto risco e igual potencial: eficaz na criação de vantagens estruturais se acompanhada de implementação rigorosa e monitoramento; vulnerável a atrasos políticos e a contestações legais internas. A jogada demonstra, porém, que a Comissão escolheu mover-se com prontidão quando as condições diplomáticas permitiram: um movimento que busca transformar oportunidade em influência tangível, reafirmando a ambição europeia de ser ator ativo no xadrez geoeconômico do século XXI.






















