Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que provisoriamente, os contornos da influência na região, o Paquistão lançou ataques aéreos contra cidades estratégicas do Afeganistão, incluindo Kabul e Kandahar, em uma escalada que as autoridades de Islamabad definiram como uma resposta contundente contra os Talibãs. A ação marcou um novo capítulo nas fricções fronteiriças que se intensificaram na noite recente e que já produzem vítimas e deslocamentos.
Segundo a ONG italiana Emergency, nove feridos deram entrada nos seus centros de emergência no país, embora o balanço seja ainda provisório. “Fino ad ora abbiamo ricevuto nove feriti nei nostri Centri”, disse Dejan Panic, diretor do programa da Emergency no Afeganistão. Três pacientes foram levados ao hospital de Kabul provenientes da área de Pul-e-Charkhi, a leste da capital, e seis chegaram ao posto de primeiro socorro em Gardez, na província de Paktia. Quatro destes já foram transferidos para Kabul e dois aguardam chegada nas próximas horas; três ambulâncias da Emergency realizam os transferimentos.
Panic alertou para a possibilidade de aumento do número de feridos: “os ataques aéreos se interromperam momentaneamente, mas continuam os confrontos na fronteira nas áreas de Nangarhar, Kunar e Khost, intensificados nos últimos dias”. Ele destacou também o risco humanitário: mesmo após o fim formal das operações internacionais em 15 de agosto de 2021, as consequências da violência persistem cotidianamente nos centros da Emergency, que desde 1999 mantém presença permanente no país, com centros cirúrgicos em Kabul e Lashkar-gah, um centro cirúrgico e pediátrico e maternidade em Anabah, no Vale do Panshir, além de uma rede de mais de 30 postos de saúde primária.
Dejan Panic advertiu que esta nova escalada pode arrastar o país de volta ao pesadelo da guerra: “em 2026, cerca de 21 milhões de afegãos precisarão de ajuda humanitária por causa da crise econômica, alimentar e sanitária; um novo conflito colocaria a população de joelhos”. A ONG exigiu o fim imediato das hostilidades, proteção dos civis e a abertura de canais de diálogo para resolução diplomática.
Do lado militar, o porta-voz paquistanês afirmou que os ataques aéreos atingiram 22 alvos militares afegãos e anunciou um pesado balanço de perdas: pelo menos 12 soldados paquistaneses mortos e 274 “funcionários e militantes talibãs” abatidos desde a noite de quinta-feira, segundo Ahmed Sharif Chaudhry. Em resposta política, o governo talibã afirmou que aviões de reconhecimento paquistaneses estariam atualmente sobrevoando o espaço aéreo afegão — declaração do porta-voz Zabihullah Mujahid, dada em coletiva em Kandahar, poucas horas após os ataques.
Esta sucessão de eventos projeta novas linhas de tensão sobre uma região já marcada por fraturas: o episódio não é apenas uma série de golpes e contra-golpes, mas um movimento no grande tabuleiro geopolítico do Sul da Ásia. A operação de Islamabad sugere uma tentativa de recalibrar zonas de influência e impor custos ao que considera ameaças transfronteiriças. Ao mesmo tempo, a reação de Cabul — e a repercussão entre atores regionais — evidencia a fragilidade dos alicerces da diplomacia local.
Como analista que observa os grandes desenhos estratégicos, lembro que movimentos militares como este têm efeito de tectônica: pequenas fraturas locais podem reverberar e redesenhar fronteiras invisíveis de poder, envolvendo atores externos e multiplicando riscos humanitários. A alternativa prudente é a diplomacia robusta: mecanismos de contenção, verificação de fronteiras e mediação multilateral para evitar que a região deslize novamente para um conflito aberto com consequências imprevisíveis.
Palavras-chave: Paquistão, Afeganistão, Talibãs, Kabul, Kandahar, Emergency, civis, bombardeios.






















