O que fazia Renato Brunetta em Trigoria? A cena surpreendeu os habituais visitantes do centro esportivo da Roma: o ex-ministro e atual presidente do Cnel, conhecido por seu percurso político, sentado no banco oposto ao de Gian Piero Gasperini, assistindo de perto uma partida amistosa entre a equipe da capital e o modesto clube do quadrante noroeste da cidade, o Montespaccato.
A resposta exige olhar para trás, além do placar (4-0 a favor da Roma): a presença de Brunetta não é um capricho pessoal, mas parte de um processo mais amplo de restituição cívica. O Montespaccato milita na Serie D e, como muitos clubes de periferia, viveu fases de captura por interesses criminosos. Em 2018 a sociedade foi sequestrada por pertencer a um ramo do grupo Gambacurta; depois passou para as mãos da associação Asilo Savoia, a mesma responsável pela Palestra della Legalità em Ostia.
A história recente do clube é um exemplo de como o esporte pode ser reapropriado como patrimônio comunitário: em 2023 concluiu-se o longo percurso judiciário e a associação apostou no azionariato popolare para manter a equipe ancorada ao bairro. Hoje são 1.754 sócios, entre os quais se insere Brunetta — não como figura principal, mas como um dos membros desse projeto coletivo. O sócio número um é Angelo Paparelli, irmão de Vincenzo, morto no Estádio Olímpico em 28 de outubro de 1979; o presidente do clube é Massimiliano Monnanni, que também ocupa cargo de secretário no CNEL e foi o articulador que convidou Brunetta para acompanhar a partida.
Na tarde de terça-feira, segundo relatos do clube, Monnanni ligou para Brunetta e sugeriu: venha comigo. O ex-ministro aceitou, viu o amistoso e, nas palavras do presidente, “se divertiu”. A natureza do convite — e a presença institucional na proximidade do banco de Gasperini — revelam algo sobre o novo papel público do Montespaccato: uma entidade que procura ser referência de legalidade, memória e inclusão social, mais do que um simples ator esportivo.
Para completar a cena: a partida terminou 4-0 para a Roma. Um dos gols foi marcado por Giacomo Arduini, médio da Primavera cuja árvore genealógica do futebol carrega um nome emblemático: o avô Giancarlo “Picchio” De Sisti. Pequenos episódios — um gol, um banco lateral compartilhado — convivem com significados maiores.
Não se pode fechar o relato sem lembrar as feridas recentes: o centro esportivo de Montespaccato foi alvo de vandalismo e ataque em 2024, e o espaço comunitário será rebatizado como centro Don Pino Puglisi. A recuperação das estruturas, a gestão por uma impresa sociale no bar e o apelo a um “pacto de bairro” compõem o horizonte de um projeto que responde ao crime com cultura esportiva e participação.
Como analista, vejo na visita de Brunetta algo que vai além da curiosidade: trata-se de um gesto simbólico que combina política, memória e responsabilidade cívica. O futebol, nesse caso, funciona como palco e instrumento de reinvenção urbana — um lugar onde a legitimidade se reconstrói jogo a jogo, sócio a sócio. A presença da Roma e de um técnico de prestígio como Gasperini oferece visibilidade; a resposta do bairro — e a ideia de azionariato popolare — testa modelos de resistência à captura criminosa do esporte local.
Em última instância, a foto de Renato Brunetta em Trigoria é um fragmento de narrativa: o político como sócio-anônimo, o clube que retoma sua função social, e o jogo que, por algumas horas, reata um laço coletivo entre a cidade e suas periferias. Não se trata de um gesto midiático isolado, mas de um capítulo de uma história mais longa sobre como o futebol pode ser um instrumento de reconstrução comunitária.






















