Por Otávio Marchesini — Espressso Italia
Não é um dado menor: a Atalanta ainda não conseguiu, em toda a temporada, a difícil operação de rimontar dois gols. A noite de terça-feira contra o Borussia Dortmund coloca esse desafio de frente com a vantagem de tempo — pela primeira vez, a equipe terá uma partida inteira para tentar a recuperação, e, em caso de igualdade no agregado, mais meia hora para definir o destino da qualificação.
O cenário, porém, não é simples. Do lado alemão haverá um bloco defensivo compacto, com tendência ao 5-4-1 e forte capacidade de transição, o que enquadra o confronto em fórmula clássica: se o Dortmund não protagoniza o jogo, aproveita o erro alheio e mata no contragolpe. Ainda assim, o momento psicológico da Atalanta é favorável — e esse elemento psicológico, mais do que um detalhe, pode transformar a leitura tática da partida.
Ao contrário de derrotas recentes em que a equipe tentou a recuperação (confrontos com PSG, Napoli, Verona e Athletic Bilbao), agora existe a possibilidade de planejar a ação ao longo de 90 minutos. É aqui que entra a equação humana da torcida e a figura central do ataque: Gianluca Scamacca.
O técnico Palladino pediu publicamente uma bolgia — não apenas as filas das arquibancadas, mas um estádio inteiro atuando como força ativa. São esperados cerca de 25 mil espectadores; todos terão papel fundamental para neutralizar a vantagem psicológica que o Dortmund leva quando joga apoiado pelo seu público. Em outras palavras, a pressão atmosférica deve ser revertida a favor dos nerazzurri.
Além do volume sonoro, o papel de Scamacca é tático: contra um 5-4-1 encorpado, a Atalanta precisará de finalizações de fora da área e, sobretudo, de presença e físico na referência de ataque — características que o atacante pode oferecer quando está numa boa noite. Se Scamacca reproduzir o nível dos seus melhores momentos — multiplicado pelo menos por três em comparação ao rendimento recente contra o Napoli — as probabilidades de uma virada real e plausível crescem substancialmente.
Também há aspectos específicos do Dortmund que favorecem esse plano: longe de casa, os gialloneri parecem menos assertivos do que em pleno Signal Iduna Park, onde o famoso “muro amarelo” influencia fortemente o ímpeto inicial. Em campo adverso, esse efeito diminui — depende da equipe arrastar a torcida, e é aí que os bergamascos podem explorar uma vantagem simbólica e prática.
Do ponto de vista coletivo, a missão requer maior presença de gênio e músculo no ataque, paciência para furar linhas compactas e, sobretudo, intensidade emocional coordenada entre time e torcida. Se tudo isso convergir, a noite pode prolongar o sonho da qualificação até — e além — das 23h. Caso contrário, a análise será a mesma de sempre: o resultado será a medida exata das escolhas táticas e do estado psicológico de um clube que, nesta temporada, ainda não experimentou a recuperação de dois gols.






















