Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há vitórias que reescrevem a história de um esporte. Em Livigno, Simone Deromedis não apenas colocou uma medalha no peito; ele gravou o primeiro ouro olímpico da Itália no skicross. Nascido na Val di Non e forjado entre os pomares e as encostas da Predaia, Deromedis transformou uma final memorável em uma página inaugural para os esportes de neve italianos. A dobradinha azzurra — com Federico Tomasoni ao seu lado conquistando a prata — acrescentou profundidade simbólica ao triunfo: não foi apenas um feito individual, mas um testemunho de um movimento coletivo.
Mas, para quem compete com fogo dentro do peito, a celebração dura o tempo exato necessário para recalibrar a mira. Com o ouro olímpico agora na vitrine, o foco de Simone Deromedis volta-se imediatamente à Coppa del Mondo, que recomeça no mesmo fim de semana em Kopaonik, na Sérvia. A etapa de qualificação abre já em 25 de fevereiro, com duas rodadas previstas para sexta e sábado.
A situação na classificação geral é clara: o canadense Reece Howden lidera com 593 pontos, enquanto Deromedis aparece em segundo com 460. Ainda restam sete provas nesta temporada — as duas de Kopaonik, a única prova de Montafon em 12 de março, o duplo confronto em Craigleith (Canadá) nos dias 21 e 22 de março e o encerramento em Gällivare (Suécia) entre 28 e 29 de março — e a diferença é reduzível.
«A medalha me dá uma carga incrível, mas agora quero a Sfera di Cristallo», disse o campeão, deixando explícita a ambição de disputar a remontada sobre Howden. «O objetivo é claro: tentar encurtar a diferença. Sei que ele é sólido, mas depois do que mostramos em Livigno, sinto que tudo é possível. O distacco é colmável se continuo a esquiar com esta cattiveria e esta fluidità. O cotovelo a cotovelo é o que me exalta, é a minha dimensão.»
Essas palavras traduzem a natureza dual de um atleta contemporâneo: a humildade do reconhecimento e a consciência estratégica de quem já pensou no calendário, nos adversários e nas margens de erro. Simone Deromedis representa um perfil esportivo que se alimenta de adrenalina em múltiplas frentes — não só sobre os esquis, mas também em pistas de kart e trilhas de mountain bike — e que transforma experiências transversais em vantagem competitiva, sobretudo na capacidade de ler linhas e administrar o contato físico, elemento definidor do skicross.
Do ponto de vista institucional e cultural, o ouro de Livigno funciona como um indicador: a Itália passou por um processo de maturação técnica e de investimento que encontra sua expressão num resultado olímpico. No entanto, o desígnio de Deromedis é um lembrete prático — e quase cruel — de que a elite do esporte exige continuidade. A Sfera di Cristallo não é um troféu simbólico: é a demanda por regularidade, por performance sustentada ao longo de uma temporada onde pequenos detalhes acumulam grandes diferenças.
À medida que as quotas da Copa do Mundo retomam o contorno competitivo, será interessante observar como a psicologia do evento olímpico reverberará nas provas seguintes. A vitória de Livigno pode ter reequilibrado forças não apenas no placar, mas na confiança dos protagonistas. Para Deromedis, o caminho até a Sfera di Cristallo passa por manter a «cattiveria» e a «fluidità» que o tornaram imbatível na final — e por traduzir a inspiração olímpica em consistência esportiva.
Em termos simbólicos, algo mudou: as montanhas italianas ganharam um novo nome inscrito na memória coletiva. Agora a narrativa segue: não mais apenas o instante do ouro, mas a soma dos percursos que o transformam em legado.
Otávio Marchesini — Espresso Italia






















