Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
A jovem britânica Emma Raducanu, hoje 23 anos e número 24 do mundo, confirmou uma mudança significativa em sua relação com o universo comercial do esporte: após cinco anos vestindo Nike, a tenista assinou com a grife japonesa UNIQLO, mesma marca que vestiu Roger Federer e que hoje patrocina Kei Nishikori. O anúncio tem contornos esportivos, mas também simbólicos: trata-se de um contrato que reitera o valor de imagem da atleta mesmo diante de resultados esportivos irregulares.
Segundo reportagens espanholas, o acordo seria plurianual e renderia à jogadora cerca de 3,5 milhões líquidos por temporada, com complementos atrelados a bônus por desempenho e colocação na classificação WTA. Números desse porte explicam por que grandes marcas seguem interessadas em atletas que trazem uma narrativa — no caso de Raducanu, a combinação de juventude, histórico de grande triunfo e potencial de recuperação.
É preciso lembrar os fatos com precisão: na carreira profissional, Raducanu conquistou até agora apenas um título de torneio — e que título: o US Open de 2021, vencido na final contra a canadense Leylah Annie Fernandez por 6-4, 6-3. Desde então, a britânica viveu uma trajetória marcada por lesões, oscilações de rendimento e expectativas comerciais. Ainda assim, a assinatura com UNIQLO confirma que o mercado valoriza mais do que a mera coleção de troféus; avalia potencial de mercado, personalidade pública e capacidade de reescrever uma história.
Do ponto de vista institucional e cultural, o movimento merece ser lido em duas camadas. Em primeira instância, trata-se de uma transação econômica: uma marca japonesa fortalece seu portfólio no tênis feminino europeu e britânico ao apostar numa atleta com forte apelo midiático. Em segunda instância, é uma expressão da contemporânea economia da atenção, em que o patrocinador compra projeção e narrativa tanto quanto material esportivo. A assinatura não apaga a necessidade esportiva: Raducanu agora carrega o duplo desafio de justificar o contrato vencendo torneios e de consolidar uma imagem estável após anos de incerteza competitiva.
Para observadores do esporte que buscam contexto, a transferência também lembra como o tênis funciona hoje como plataforma transnacional de identidade e consumo. Uma marca japonesa que vestiu um ícone suíço passa a associar-se a uma jovem britânica de ascendência romena e chinesa — cruzamentos que dizem tanto sobre globalização do esporte quanto sobre os múltiplos públicos que os patrocinadores desejam alcançar.
Na prática esportiva imediata, o objetivo é direto: vencer mais torneios e subir no ranking WTA. Para os patrocinadores, o cálculo é igualmente direto, embora mais complexo: o investimento em Emma Raducanu é aposta numa narrativa de redenção e numa plataforma comercial que se traduzirá em exposição, vendas e campanhas globais.
Resta acompanhar o desfecho: se o contrato com UNIQLO será o catalisador de uma nova fase competitiva para Raducanu, ou se permanecerá sobretudo como expressão do valor simbólico que atletas conservam mesmo quando as estatísticas são modestas. Em ambos os cenários, o caso confirma uma verdade contemporânea do esporte europeu: títulos importam, mas histórias bem contadas e comercialmente alinhadas continuam a comandar orçamentos milionários.
25 de fevereiro de 2026






















