Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Quando o esporte ultrapassa seu caráter simbólico e entra de cabeça nas finanças públicas, o que está em jogo é muito mais do que medalhas: é a credibilidade do Estado, o equilíbrio orçamental de instituições locais e, em última instância, a memória coletiva que ficará dos Jogos. É nesse cruzamento que se insere a intervenção do comissário Giuseppe Fasiol, figura-chave para fechar as contas da organização dos Jogos Milano Cortina 2026.
A nomeação do engenheiro Giuseppe Fasiol, 65 anos, executivo de carreira na administração regional e recentemente aposentado, trouxe ao processo algo que faltava: instrumentos financeiros e uma dotação estatal atribuída por decreto para cobrir o déficit operacional. Oficialmente delegado às Paralimpíadas, Fasiol atua, na prática, como o gestor que tenta pareggiare i conti — igualar receitas e despesas — e evitar que os entes fundadores da Fondazione Milano-Cortina, sobretudo a Regione Veneto e o Comune di Cortina, tenham de arcar com o rombo.
É importante separar dois universos de gasto: o operacional dos Jogos (cerimônias, logística, segurança, hospitalidade, direitos e produção) e o investimento em obras de legacy — vias, instalações e variantes sob responsabilidade da Simico. O que Fasiol gerencia refere-se ao primeiro eixo, onde as contas poderão, segundo o governo, ser equilibradas sem onerar excessivamente os cofres locais.
Os números que justificam a necessidade de intervenção são relativamente claros. As entradas com venda de ingressos vêm melhor do que o esperado — a Fondazione projeta algo em torno de 200 milhões — e o merchandising também surpreendeu (citam-se vendas de cerca de 100 mil mascotes, Milo e Tina). Porém, o volume mais robusto provém de patrocinadores nacionais, estimados em aproximadamente 550 milhões, e de recursos ligados ao Comitê Olímpico Internacional, que repassa uma parte significativa das receitas globais de patrocínio e direitos de TV, cerca de 570 milhões. Com outras rubricas menores, as projeções de receita se aproximam de 1,5 bilhão.
Do lado das despesas, o orçamento original de 2019 apontava para 1,4 bilhão. A conjugação da pandemia, inflação e pressões logísticas elevou esse total para cerca de 1,7 bilhão, deixando um déficit operacional na ordem de 200 milhões. É esse gap que a dotação sob a autoridade do comissário Giuseppe Fasiol pretende cobrir, evitando decisões traumáticas para as administrações locais e preservando o desenho institucional da Fondazione Milano-Cortina.
Há, claro, uma dimensão política e simbólica nessa solução: transferir para o Estado a conta final dos Jogos é também uma opção de preservação da estabilidade territorial. Para a Regione Veneto e para Cortina è Ampezzo, significa não ter de interromper programas sociais ou investimentos locais para tapar um buraco criado por contingências externas à sua vontade. Para o país, representa o custo de manter a promessa olímpica sem quebrar a cadeia de governança criada para o evento.
Como analista, vejo na intervenção do comissário um gesto técnico com força política: estabiliza um projeto que, apesar dos imprevistos, ofereceu resultados organizacionais louváveis, e protege a tessitura financeira das instituições regionais. Resta acompanhar a execução: a eficiência do resgate dependerá da transparência dos critérios de alocação e da separação rigorosa entre o que é gasto operacional e o que pertence ao legado de infraestrutura.
Ao final, os Jogos serão lembrados por seus atletas e espetáculos — mas também pelo modo como o país resolveu, coletivamente, a conta que os acompanha.
Otávio Marchesini é repórter de Esportes e analista histórico-cultural do esporte para a Espresso Italia.






















