Por Otávio Marchesini — Em um posicionamento que mistura memória institucional e alerta político, o ex-presidente da FIFA Joseph “Sepp” Blatter renovou sua crítica ao atual dirigente máximo do futebol mundial, Gianni Infantino, quando o mandato deste completa dez anos no comando da entidade, neste 26 de fevereiro.
Em entrevista ao semanário alemão Sport Bild, Blatter — que, recorde-se, foi envolvido em escândalos que o forçaram a renunciar, embora posteriormente tenha sido absolvido das acusações de fraude — questionou a natureza do poder dentro da FIFA. “O que é a FIFA hoje? É composta apenas pelo seu presidente, Infantino. A FIFA é uma ditadura! O Conselho da FIFA, com quase 40 membros, não tem mais voz”, afirmou o suíço, que fará 90 anos em março.
O tom foi além da crítica institucional: Blatter acusou Infantino de governar como um “Rei Sol” e disse ter ouvido relatos de que o atual presidente evita até ser saudado quando chega à sede da entidade. “Ele está se isolando totalmente, mas o futebol sobreviverá a Infantino”, acrescentou, numa observação que mistura desdém e uma leitura estratégica sobre a resiliência do esporte frente a lideranças individuais.
Mais contundente ainda foi o comentário sobre o relacionamento entre a FIFA e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa análise que ultrapassa o ambiente estritamente esportivo. Para Blatter, Trump “vai montar um espetáculo” nos Mundiais de 2026, agendados para Estados Unidos, Canadá e México, e para isso precisa do presidente da FIFA. “Complice, não amigo”, ponderou o ex-dirigente sobre Infantino, referindo-se ao prêmio de paz entregue por iniciativa da entidade a Trump em dezembro passado, gesto que levou o próprio Infantino a ser submetido ao comitê de ética da FIFA.
Ao comentar questões de segurança, Blatter lançou um alerta incomum vindo de quem conhece as engrenagens do futebol global: questionou a realização do torneio em solo norte-americano diante de um quadro de instabilidade política e de segurança, evocando o caso de Minneapolis como algo que, em sua avaliação, foi mais grave do que os incidentes observados no Mundial do Catar em 2022. “Espero que o futebol seja mais forte que a política e que haja calma quando a bola começar a rolar”, disse, numa combinação de ceticismo e esperança institucional.
Sobre a exclusão da Rússia das competições, Blatter defendeu uma revisão que separe política e esporte. “Não sou juiz. Minha opinião: deve-se separar a política do futebol. Não podemos excluir todos os países em guerra; caso contrário, muitas outras federações seriam envolvidas”, sustentou, lembrando que algumas confederações permitem a participação de atletas russos.
O pronunciamento de Blatter resgata dilemas centrais que atravessam o futebol contemporâneo: a tensão entre personalismo e colegialidade nas estruturas de poder; o entrelaçamento com decisões políticas e diplomáticas; e a necessidade de regras claras de governança que preservem o caráter global e plural do esporte. Mais do que um ataque pessoal, suas palavras oferecem um ponto de vista histórico sobre a fragilidade das instituições quando submetidas a concentrações de autoridade.
Num momento em que a FIFA se prepara para organizar o maior evento esportivo do planeta em solo norte-americano, as declarações de Blatter reabrem o debate sobre transparência, segurança e o papel das federações nacionais e do próprio Conselho na supervisão da entidade. Se a bola, afinal, promete unir milhões de vozes, permanece em aberto a pergunta que o ex-presidente lançou: quem, hoje, representa efetivamente o futebol mundial?






















