Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Quando o esporte se encontra com a memória institucional, as partidas que se jogam se estendem além das pistas: são disputas por direitos, reconhecimento e oportunidades. Esse é o sentido da história de Anna Arnaudo, a jovem campeã de Cuneo cuja exclusão dos grupos desportivos militares por uma norma de 1932 acabou levando o debate ao plenário da Câmara dos Deputados em Roma.
O caso foi levado a Montecitorio pelo deputado do Partito Democratico Mauro Berruto, ex-técnico da seleção masculina de voleibol que conquistou o bronze em Londres 2012. Berruto apresentou um ordem do dia ligado ao decreto Milleproroghe para superar a vedação que impede atletas portadores de diabetes de integrarem as estruturas militares desportivas — uma disposição nascida no período do fascismo, quando Benito Mussolini estava no governo.
“É uma norma fora da história”, declarou Berruto ao apresentar a proposta, que obteve apoio amplo entre as forças políticas. Para ele, não se trata apenas de rever um dispositivo jurídico arcaico, mas de reconhecer que a medicina, a preparação atlética e as políticas de apoio aos desportistas evoluíram: hoje muitos atletas com doenças crónicas vivem carreiras de alto nível sem colocar em risco a sua segurança ou desempenho.
Anna Arnaudo tem 25 anos, é natural de Cuneo (nascida em 2000) e especialista do meio e fundo. Atleta do CUS Torino, já foi campeã nacional nos 5.000 e 10.000 metros e integra a seleção italiana de atletismo. Paralelamente, constrói uma trajetória académica de excelência: graduada com louvor em Engenharia Informática, é hoje doutoranda em Inteligência Artificial no Politecnico di Torino, incluída no programa de dupla carreira (dual career) destinado a atletas de alto nível.
A combinação de atleta e pesquisadora torna mais evidente a contradição da exclusão: enquanto muitos colegas encontram estabilidade financeira e organização através dos corpos desportivos militares — que, como lembrou Berruto, foram fundamentais nas Olimpíadas de Cortina, onde 18 das 30 medalhas partiram desses grupos —, Arnaudo encontra uma barreira normativa que limita suas oportunidades e força escolhas difíceis entre treino e subsistência.
O efeito prático é simples e brutal: o acesso aos grupos desportivos militares representa, em várias modalidades, a condição para viver do desporto em regime profissional. Fora desses circuitos, muitas disciplinas permanecem na informalidade ou no amadorismo, com consequências para a formação de talentos e a diversidade social do esporte.
O movimento desencadeado após a publicação do relato de Arnaudo no Corriere Torino mobilizou interlocuções institucionais e sensibilizou parlamentares. A proposta de Berruto, recebendo consenso amplo, cria um «margem de ação» — nas palavras do próprio deputado — que cabe agora ao Ministério da Defesa traduzir em prática e dirimir dúvidas operacionais e regulatórias.
Do ponto de vista cultural, a questão também é simbólica: tratar o atleta como cidadão integral, com direito à carreira desportiva e à segurança profissional, implica reconhecer avanços médicos e sociais. Excluir alguém por uma norma de quase um século é, sobretudo, uma contradição com a própria missão pública de promover mérito e igualdade de oportunidades.
Anna não pede privilégios; pede paridade de condições. O desafio colocado ao sistema italiano é, portanto, mais amplo: atualizar instituições e políticas para que o talento — seja nos estádios, nas pistas ou nos laboratórios — não esbarre em burocracias que pertencem a outra época. Se o Parlamento acolher a proposta e o Ministério agir, a vitória será dupla: para a atleta de Cuneo e para uma concepção de esporte mais inclusiva e contemporânea.






















