Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A Noruega voltou ao centro do debate esportivo europeu não por um evento isolado, mas por uma sucessão de sinais que apontam para um sistema profundamente eficaz. Em futebol, o país que tem pouco mais de 5,5 milhões de habitantes e um território maior que o da Itália por cerca de 80 mil km², surpreendeu ao forçar a Itália aos playoffs da seleção e ao ver um clube do extremo norte, o Bodo/Glimt, protagonizar um capítulo improvável nas competições continentais.
No epicentro dessa narrativa está Erling Haaland — atacante do Manchester City — cujo desempenho (29 gols em 38 partidas na temporada referida) tornou-se símbolo de uma geração que alia potência física e sofisticação técnica. Ao lado dele, o país exibe heróis de outras modalidades: Johannes Høsflot Klæbo, com seis ouros em seis provas olímpicas no esqui cross‑country; os irmãos Ingebrigtsen, dominantes no meio‑fundoda pista; o tenista Casper Ruud e o campeão dos 400m com barreiras, Karsten Warholm. É uma constelação que confirma a existência de um ecossistema esportivo coerente e transversal.
O feito do Bodo/Glimt — vencendo clubs como Manchester City, Atlético de Madrid (em solo espanhol) e batendo a Inter em duas ocasiões durante preparação e amistosos — não é apenas uma curiosidade: é a ponta de um iceberg. Treinado por Kjetil Knutsen, o clube apresentou um futebol com identidade própria, alicerçado numa cultura local extremamente consolidada: 11 dos titulares vêm da mesma região, mais de 1.000 km ao norte de Oslo. Essa coesão territorial foi destacada pelo técnico da seleção, Ståle Solbakken, e chocou adversários e observadores.
A estratégia do Bodo mistura pragmatismo e modernidade. Com um orçamento que é uma fração do de gigantes como a Inter — um sexto da folha salarial e cerca de um décimo do faturamento — o clube investe em liderança distribuída (sete capitães), rotinas mentalmente rigorosas – graças à presença do ex-oficial da RAF Bjorn Mannsverk como coach mental – e longos períodos de pré-temporada em centros como Marbella. Surpreendeu Klopp e outros nomes do futebol europeu, que ofereceram elogios públicos à estrutura tática e ao modelo humano do clube.
O contexto socioeconômico ajuda a explicar parte do fenômeno. A Noruega figura entre os países de maior renda per capita do mundo (a matéria cita cerca de 90 mil euros), enquanto a Itália ocupa posição muito mais recuada (cerca de 40 mil euros). Ainda assim, os noruegueses parecem poupar e priorizar estruturas de base em vez de gastos ostensivos: o campo sintético que irritou a Inter, por exemplo, é antigo e modesto — algo que dificilmente veríamos nas divisões amadoras italianas —, mas funciona como palco de um futebol com identidade.
Há, porém, um lado escuro. O que impressiona externamente pode ocultar fragilidades internas: a concentração regional de talentos, a dependência de modelos formativos adaptados ao clima nórdico, tensões sobre financiamento público e privado e o risco de que seleções de elite repliquem um circuito fechado que nem sempre amplia oportunidades sociais. Em outras palavras, o sucesso norueguês é real e admirável, mas não é isento de dilemas sobre equidade, sustentabilidade e transferência de ganhos ao conjunto da sociedade esportiva.
O caso norueguês vale como estudo para quem entende esporte como fenômeno social: não se trata apenas de atacar espaços no placar, mas de construir instituições, memórias e trajetórias que definem identidades coletivas. Entre a genialidade de jogadores como Haaland e os seis ouros de Klaebo, a Noruega ensina que investimento, cultura e liderança podem compensar escala — porém lembrar sempre que todo sistema vencedor carrega também suas sombras.






















