Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O presidente da Federação Italiana de Futebol, Gabriele Gravina, deu mais um passo decisivo rumo à transformação do modelo de arbitragem nacional: a partir da temporada 2026-27 os árbitros das séries A e B serão enquadrados como profissionais. A mudança foi apresentada em reunião com a categoria, na qual estiveram presentes o designador Rocchi e o vice-presidente vicário da AIA, Massini.
A proposta centraliza a seleção e a gestão técnica na lógica do mérito, eliminando a tradicional representação territorial que marcou por décadas a estrutura arbitral italiana. O modelo de referência é o inglês: a Premier League e a PGMOL (Professional Game Match Officials Limited).
Na prática, a FIGC criará uma sociedade de direito privado, participada 100% pela federação, dotada de um conselho com três membros independentes — que, segundo o esboço, elegeriam o diretor técnico (o futuro designador) e um diretor-geral. A nova entidade concentraria a gestão dos árbitros de A e B; a partir da terceira série em diante, os profissionais permanecem sob a alçada da AIA.
O orçamento inicial previsto é de 20 milhões de euros, em larga parte aportados pela FIGC. Entre os pontos mais relevantes da reforma está o enquadramento contratual: após um período inicial, os árbitros serão contratados em regime de contrato de trabalho a tempo determinado, com salário fixo que não dependerá estritamente do número de jogos dirigidos, inclusão dos direitos de imagem no contrato e garantia de TFR (indenização de fim de carreira).
O novo regime prevê ainda a revisão do contingente de oficiais — hoje composto por cerca de 40 árbitros, 66 assistentes e 24 video match officers — e a adoção de um processo anual de promoção desde o “vivaio” da série C. A escolha do designador ficará a cargo dos membros da nova sociedade, uma decisão que Gravina considera inegociável.
Na reunião, notou-se uma atmosfera construtiva, apesar da ausência do presidente da AIA, Antonio Zappi, suspenso por 13 meses. Rocchi trouxe à mesa potenciais dificuldades de gestão de um grupo agora profissionalizado; Massini solicitou maior participação da associação no controle técnico — uma reivindicação a ser negociada na transição.
O calendário prevê a apresentação formal da reforma ao Conselho Federal em abril. Se aprovada, a mudança inaugura uma nova fase institucional: a tentativa de tirar a arbitragem italiana de um modelo regionalizado e aproximá‑la de parâmetros profissionais e de governança já testados em ligas europeias.
Minha leitura, como analista atento às repercussões sociais e institucionais do esporte: a proposta de Gravina é coerente com um movimento mais amplo de modernização, que não só busca elevar a qualidade técnica das decisões em campo, mas também reconstruir mecanismos de legitimidade e estabilidade profissional. No entanto, o sucesso dependerá de detalhes cruciais — governança real da sociedade, clareza nas carreiras, proteção laboral e autonomia técnica — e da habilidade política para acomodar resistências internas sem sacrificar a meta da meritocracia.
O projeto representa uma ruptura com tradições arraigadas. Transformar árbitros em profissionais é também um ato simbólico: reconhece a arbitragem como uma carreira com direitos, responsabilidades e impacto direto na credibilidade do campeonato. Resta agora traduzir o desenho em regras operacionais que resistam aos choques institucionais e econômicos que virão.
Reforma em pauta no Conselho Federal em abril — atualização e cronograma acompanhem nas próximas edições.






















