Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há coincidências que se repetem até deixarem de ser acaso e virarem sinal. Essa ideia atravessa a trajetória de Paolo Galbiati, 42 anos, técnico que nos últimos anos colecionou taças em situações muito distintas — e que, no último domingo, acrescentou a mais vistosa delas: a Copa del Rey com o Baskonia, vencendo na final o Real Madrid e, poucas horas antes, o Barcelona na semifinal.
Não se trata apenas de uma sucessão de títulos: são três histórias que desenham um perfil. Em 2018, a Coppa Italia com o Torino nasceu da contingência e da capacidade de compactar um grupo ao limite — Galbiati virou treinador principal apenas uma semana antes das Final Eight, atravessou lesões e saídas e fez do que parecia uma quimera um feito coletivo que ele próprio define como “a taça da inconsequência”.
Em 2025, com Trento, a narrativa mudou. Lá, a vitória foi mais construída, resultado de uma visão de clube: contratos longos, aposta em atletas como Quinn Ellis e a sorte repartida no acerto de peças como Saliou Niang. A química de um elenco faminto transformou planejamento em êxito, e Galbiati viu ali uma equipe que obedecia aos comandos com a naturalidade de um time jovem, reduzindo qualquer margem para improviso.
E, finalmente, a consagração recente: Baskonia 2026. Galbiati descreve a sensação com a honestidade de quem desmonta o acontecimento para tentar entendê-lo. Na véspera da final, não conseguia dormir pensando que, vindo de Concorezzo, um técnico italiano chegava para disputar e vencer a Copa del Rey. A sequência é quase cinematográfica: nas quartas, Tenerife; na semifinal, Barcelona; na final, Real Madrid. Em menos de 22 horas, duas vitórias contra gigantes de um basquete europeu que concentra recursos, história e pressão.
Há um detalhe humano que ilumina o processo: depois de perder para Tenerife no campeonato, foi Rodions Kurucs quem, entrando no vestiário, disse a Galbiati que a derrota servira como combustível e sugeriu fazer um vídeo para motivar a equipe. Quando um jogador-chave te dá esse voto de confiança, disse o treinador, a resposta do grupo se torna mais possível. E foi possível.
O que une essas três taças é menos o esquema tático do que a capacidade de construir sentido coletivo em contextos diferentes — improviso, projeto de médio prazo e explosão emocional. Galbiati, que recebeu as felicitações do presidente da federação, Petrucci — “ele se congratulou, me quer bem”, comentou com um sorriso contido — mantém uma postura intacta: “não vou mudar, sou um sonhador feliz”.
Enquanto muitos narram o esporte como sequência de resultados e mercado, a trajetória de Paolo Galbiati convida a ler as vitórias como fenômenos sociais. Cada taça remete a economias internas dos clubes, decisões de gestão, apostas em formação e, sobretudo, à construção de uma identidade coletiva que resiste à volatilidade do calendário europeu.
É prematuro dizer se a Copa de 2026 é a confirmação definitiva de seu lugar entre os treinadores de elite. O próprio Galbiati confessa que ainda está por entender “o que foi que fez”. A resposta talvez não passe por um rótulo, mas por continuar a fazer aquilo que o define: organizar jogadores, gerir expectativas e, sobretudo, sonhar. E sonhar bem — o suficiente para transformar coincidências em indícios de um futuro que ele prefere construir passo a passo.
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