Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O panorama do tratamento do câncer de endométrio em estágio avançado ou recidivado pode estar diante de uma mudança estrutural. Dados do ensaio internacional estudo Ruby apontam que a adição do anticorpo de imunoterapia dostarlimab à combinação padrão de quimioterapia (carboplatina e paclitaxel) em primeira linha reduz de forma significativa o risco de progressão da doença e estende a sobrevida mediana em vários meses.
Na Itália, mais de 133 mil mulheres vivem com diagnóstico de câncer de endométrio e cerca de 9 mil novos casos são esperados a cada ano. A doença é mais comum após os 50 anos e figura como o quarto tumor mais frequente na população feminina, atrás de mama, cólon e pulmão. Ao contrário de muitas neoplasias que apresentam queda na incidência, o câncer de endométrio é uma exceção em ascensão — um fenômeno ligado ao envelhecimento da população, mudanças nos estilos de vida e no padrão alimentar.
O estudo Ruby, que recrutou 494 pacientes, avaliou a eficácia do dostarlimab quando administrado junto com o regime de carboplatina e paclitaxel logo no início do tratamento. Os resultados mostram uma redução de aproximadamente 24% no risco combinado de progressão da doença ou morte, além de um ganho de cerca de sete meses na sobrevida mediana. De forma reforçadora, o benefício foi observado em todas as quatro subclasses moleculares do tumor estudadas, o que amplia o potencial impacto clínico dessa abordagem.
Do ponto de vista molecular, sabe-se desde os desdobramentos do Projeto Genoma Humano que o câncer de endométrio não é uma entidade única. Aproximadamente 30% dos tumores apresentam instabilidade de microssatélites (MSI), uma assinatura genética geralmente associada a prognóstico mais favorável. Os outros 70% compõem um conjunto heterogêneo, frequentemente mais complexo e resistente a intervenções tradicionais. É nesse cenário que a combinação de imunoterapia com quimioterapia se mostra promissora, ampliando opções para a vasta maioria das pacientes que hoje recebem apenas quimioterapia.
Domenica Lorusso, diretora do programa de ginecologia oncológica do Humanitas San Pio X, em Milão, sintetizou a relevância clínica da investigação: o estudo Ruby responde a uma necessidade real e pode quebrar duas décadas de imobilismo terapêutico.
Os efeitos práticos dessa inovação trafegam por múltiplas dimensões. Clinicamente, a possibilidade de prolongar a sobrevida e retardar a progressão traduz-se em mais tempo de qualidade e em novas janelas para tratamentos subsequentes. Em termos de saúde pública e políticas, a adoção de uma combinação imunoterápica em primeira linha exigirá revisões nas diretrizes, negociações de custo com sistemas nacionais de saúde e atenção à capacidade de diagnóstico molecular (testagem de MSI e outros biomarcadores).
Há também um elemento simbólico. Stádios avançados de câncer de endométrio atingem sobretudo populações envelhecidas e socialmente diversas; oferecer terapias que mudam a história natural da doença tem impacto direto na memória coletiva de muitas cidades e regiões, reconfigurando expectativas sobre longevidade, cuidado e prioridades sanitárias.
Do ponto de vista prático, é fundamental que centros oncológicos e médicos ginecologistas atualizem procedimentos para identificar candidatas a essa estratégia combinada e preparem fluxos para monitoração de efeitos adversos relacionados à imunoterapia. Ao mesmo tempo, pesquisadores e decisores devem acompanhar desfechos de longo prazo e analisar custo-efetividade em diferentes contextos nacionais.
Em síntese, o acréscimo de dostarlimab à quimioterapia representa um avanço com potencial de redefinir o padrão terapêutico para a maioria das pacientes com câncer de endométrio avançado ou recidivado. Resta agora transformar esses resultados em acesso equitativo, políticas de saúde coerentes e vigilância clínica que garantam benefícios sustentáveis para as mulheres afetadas.
Este texto foi preparado a partir dos dados divulgados pelo estudo Ruby e entrevistas com especialistas; seguirá acompanhado de análises sobre impacto regional e orientações para médicos e pacientes conforme novas diretrizes forem publicadas.






















