Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em Soldeu, Andorra, Federica Brignone faz um balanço cauteloso do pós-Olimpíadas: mesmo após os dois títulos conquistados, a campeã lida diariamente com a dor na perna esquerda originada do grave acidente de 3 de abril. A vitória olímpica não apagou a realidade física que a acompanha e que agora condiciona suas decisões sobre a continuidade da carreira.
Brignone não escondeu a franqueza: «Speravo di fare meno fatica — eu esperava estar melhor. Não quero parar, mas devo conviver com a dor». Daqui de Andorra, onde planeja competir no fim de semana na descida e nos dois super-G, a esquiadora foi direta: se as corridas se tornarem uma tortura devido à incapacidade de apoiar bem a perna, fará uma pausa. «Se não apoiar bem a perna, não posso me lançar em pistas a mais de 100 km/h», disse.
O peso simbólico das conquistas fica claro quando Brignone admite que estaria disposta a trocar os dois ouros olímpicos pela condição anterior ao acidente. É uma afirmação que revela mais do que arrependimento: expressa a prioridade pela integridade física e a consciência de longo prazo sobre o corpo de um atleta de elite. «Se não melhorar, será difícil me ver na próxima temporada. Não aceitarei continuar sem uma situação melhor; às vezes sinto pontadas alucinantes», completou.
Após o triunfo no gigante, Brignone passou um período de isolamento emocional, uma reação compreensível diante do que conseguiu sob uma condição física adversa. Ela descreve o triunfo como uma espécie de «impossível alcançado»: vencer em casa, com expectativas altas e debilitada pela lesão, foi mais do que uma vitória técnica — foi um ato de resistência.
O percurso médico também aparece como peça central nessa narrativa. Depois de Cortina, Brignone retornou ao J-Medical para avaliações e reflexões, encontrando apoio de sua equipe e do irmão antes de optar por seguir para Andorra. A escolha traduz um equilíbrio entre o desejo de aproveitar o momento e a prudência necessária para não comprometer um corpo já fragilizado.
Como analista interessado nos vetores culturais do esporte, a fala de Brignone toca em questões maiores: a expectativa coletiva sobre a resiliência do atleta, a romantização do sacrifício e a transição entre heroísmo imediato e cuidado corporal sustentável. A campeã, ao optar por não mascarar a dor, desafia a narrativa esportiva que muitas vezes glorifica a superação a qualquer custo.
Para os torcedores e para o próprio futuro de Brignone, a temporada que vem aparece como incógnita. A atleta deixa claro que continuará enquanto houver condições aceitáveis; caso contrário, prefere preservar a saúde. É uma postura que coloca a decisão nas fronteiras da técnica, da fisiologia e da dignidade pessoal.
Em última análise, a mensagem de Federica Brignone em Soldeu é dupla: celebrou o inédito e o improvável, mas também lançou um aviso realista sobre os limites do corpo. Entre a glória dos pódios e a dureza da reabilitação, torna-se claro que, para alguns atletas, a vitória mais necessária pode ser a de saber parar a tempo.






















