Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma noite que mesclou contenção tática e sinais de uma identidade coletiva renovada, a Atalanta assegurou a classificação para as oitavas da Champions League com uma vitória expressiva por 4 a 1 sobre o Borussia Dortmund. O resultado não serve apenas como um placar: é uma afirmação simbólica de persistência da equipe bergamascana como a única representante italiana remanescente na grande competição europeia.
O nome que ficará nas memórias da torcida é Nikola Krstovic. Autor de atuação decisiva, o atacante montenegrino assumiu papeis distintos ao longo da partida: finalizador eficaz, resistente em confronto físico e, no fim, personagem de um gesto coletivo que traduz o sangue frio de um time acostumado a converter sofrimento em vantagem. Nos minutos finais, já em acréscimos, Krstovic sofreu um contato na cabeça com o lateral Bensebaini — um choque que exigiu pontos de sutura e o levou a ser atendido depois do jogo.
Mesmo com a lesão, preservou-se a dimensão narrativa: foi dele o momento que originou a cobrança de pênalti que Samardzic converteu e que selou a classificação. Em termos simbólicos, a cena é exemplar: o atacante retorna dos cuidados médicos exibindo os pontos como insígnia de entrega e, nas redes sociais, compartilha a mensagem original em italiano “Ci vediamo presto sul campo. Forza Atalanta” — uma saudação que resume ambição e recuperação.
O valor futebolístico do resultado também merece leitura fria. O Borussia Dortmund, antes da partida, havia perdido apenas uma vez na temporada, diante do Bayern de Munique; a derrota por 4 a 1 em Bergamo portanto não é só uma vitória isolada, é uma amplitude que coloca a Atalanta em posição de prestígio tático na competição. Amanhã, ao meio-dia, o sorteio das oitavas definirá o adversário: será o Bayern de Munique ou o Arsenal — com quem a Atalanta já tem o precedente do 0-0 em Bergamo na última edição da Champions.
Além do significado esportivo, a repercussão humana foi imediata. Nas plataformas, os companheiros celebraram Krstovic com reverência: a conta oficial do clube escreveu “Guerriero“, De Roon respondeu com três corações, o lesionado Charles De Ketelaere o chamou de “meu herói“, e Ederson festejou com um enfático “Yesss”. Essas reações traduzem não só apoio, mas também o papel do jogador como figura coletiva — alguém capaz de catalisar uma narrativa que ultrapassa relatórios de desempenho.
Do ponto de vista mais amplo, a classificação reforça um ponto recorrente: o futebol italiano, mesmo em ciclos de reconstrução, continua encontrando na Atalanta um laboratório produtivo. O clube de Bergamo, ao longo dos anos, converteu limitações orçamentárias em inteligência organizacional e identificação local. Hoje, na Europa, esse projeto se apresenta como alternativa competitiva que articula formação, estratégia e emocional comunitário.
Krstovic, exibindo os pontos suturados, publicou a foto com legenda em italiano e recebeu apoio público — ato que, neste contexto, opera como ritual de coesão: feridas que se transformam em símbolos, lesões tratadas como emblemas de resistência. Amanhã o calendário guarda o sorteio; hoje, fica a percepção de que a Atalanta não apenas venceu um jogo, mas reafirmou uma narrativa sobre quem ela é, para sua cidade e para a cena europeia.
Data da partida: 26 de fevereiro de 2026. Próximo compromisso: definição no sorteio das oitavas, agendado para amanhã ao meio-dia.






















