Por Otávio Marchesini — A Fiorentina confirmou nesta quinta-feira, num jogo que foi mais uma lição sobre fragilidade e identidade do que um simples resultado, a sua classificação para as oitavas da Conference League. Num Estádio Artemio Franchi tomado por uma mistura de incredulidade e tensão, os viola precisaram de uma virada tardia nos tempos suplementares para eliminar o Jagiellonia — sufocante triunfo polonês de 3 a 0 que, somado ao jogo de ida, forçava a decisão dentro de Florença.
O roteiro teve contornos quase dramáticos: a tripla de Mazurek — até então sem gols em competições europeias — fez 3 a 0 para os visitantes em menos de uma hora e transformou a partida numa batalha. Dois gols no primeiro tempo, com o segundo beneficiado por uma infeliz deflexão de Comuzzo, e outro no início da etapa final explorando uma defesa que, por instantes, mostrou-se permeável demais.
O treinador Vanoli, que pretendia preservar titulares visando a ida a Udine, viu-se obrigado a reverter a estratégia. Por conta de um problema físico, Lezzerini deu lugar a De Gea, e o técnico trouxe Fagioli e Solomon ainda no segundo tempo; antes do início da prorrogação entrou também Kean. Foram esses nomes — os que o clube costuma reconhecer como capazes de decidir — que, enfim, apagaram a angústia: Fagioli, aos 107 minutos, aproveitou saída atabalhoada do goleiro Abramowicz para descontar; mais tarde, um disparo de Kean resultou em autogol de Romanczuk, garantindo a virada.
Nem tudo, porém, foi tranquilo até o apito final. Uma falha de De Gea em uma bola aparentemente inofensiva de Imaz obrigou a torcida a sofrer até o vigésimo minuto do segundo tempo suplementar antes de a classificação ser definitivamente assegurada. Assim, na próxima quarta-feira, no sorteio de Nyon, os florentinos descobrirão seu adversário nas oitavas: Strasbourg ou Raków.
Mais do que a passagem de fase, a partida expôs dúvidas sobre o real progresso da equipe. Após três vitórias seguidas entre Campeonato e Copa, a noite no Franchi representou um recuo perceptível: a alternância entre brilho e vulnerabilidade defensiva, a gestão de elenco frente a prioridades simultâneas e o custo físico de jogadores-chave. Para a viagem a Udine, crucial na luta pela permanência na Série A, a equipe chegará desgastada e sem Solomon e Gosens, ambos lesionados.
Fica, enfim, uma conclusão ambivalente: a única boa notícia é a qualificação. Mas a maneira como ela foi obtida — por força do ofício nos minutos finais e não por superioridade consistente — reabre o debate sobre identidade tática, escolhas de liderança e o significado real de um clube que, na Itália, sempre foi mais que um resultado. No Franchi, mais uma vez, o futebol se mostrou espelho de uma cidade e de uma instituição em busca de certezas.






















