Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Depois de transformar o gelo de Milano‑Cortina 2026 em palco de um desempenho memorável — com um ouro nos 1.000 m, marcado por um recorde olímpico, e uma prata nos 500 m — a neerlandesa Jutta Leerdam decidiu prolongar o gesto público de sua vitória para além das pistas. Em um movimento que mistura gestão de imagem, filantropia e preservação de memória esportiva, Leerdam colocou em leilão a própria tuta olímpica que usou nas provas, junto a outras peças do kit usado em palco.
A iniciativa, hospedada no site matchwornshirts.com, rapidamente despertou interesse de colecionadores e fãs internacionais. A tuta laranja, autografada pela atleta, já acumulava propostas superiores a 9.100 euros poucos dias após a abertura do leilão, com forte probabilidade de ultrapassar a marca dos 10.000 euros antes do encerramento, previsto para 28 de fevereiro.
Além da peça principal, outros objetos ligados à campanha de Leerdam em Milano‑Cortina também atraíram ofertas relevantes: uma jaqueta acolchoada alcançou quase 5.000 euros, enquanto uma faixa para cabelo excedeu 1.300 euros. O destino dos recursos é claro e de caráter local: toda a arrecadação será destinada ao De IJsvereniging, o clube de patinação de Pijnacker onde Leerdam deu os primeiros passos.
Não se trata apenas de comercializar um item técnico. A cor laranja carrega uma carga simbólica que ultrapassa a performance individual: é um emblema da tradição esportiva dos Países Baixos, um elemento de identidade coletiva que multiplica o valor histórico do objeto. A assinatura de Leerdam sobre o tecido converte a peça em um artefato que documenta uma temporada olímpica de alto significado.
O leilão de Leerdam integra uma série de iniciativas que têm proliferado em torno dos Jogos: atletas como Femke Kok e o tricampeão de pódio Rens van ’t Wout também levaram itens às vendas para fortalecer clubes e federações. Paralelamente, o apelo pelos memorabilia olímpicos se mantém em alta; no mesmo portal, por exemplo, uma camisa autografada de Seedorf aparece avaliada em aproximadamente 2.600 euros, enquanto camisas do Milan atingem valores acima de 1.000 euros, com exceções pontuais.
Como analista que vê o esporte como espelho social, vale sublinhar que esse tipo de leilão cumpre múltiplas funções: preserva a memória de um feito — no caso, o duplo pódio de Leerdam —, capitaliza o capital simbólico do atleta para investimentos locais e reforça a relação entre ídolo e comunidade de formação. Em tempos em que clubes de base enfrentam dificuldades financeiras, a transformação de um traje de competição em recursos concretos para um clube de bairro é um gesto político e cultural.
Resta observar o desfecho da disputa online: se a tuta realmente ultrapassar os 10.000 euros, será um número que confirma tanto o fascínio pelos objetos olímpicos quanto a capacidade de atletas contemporâneos em redirecionar sua visibilidade para causas institucionais locais. Para Pijnacker, e para o De IJsvereniging, a venda significará mais do que um lance vencedor — será um investimento direto na continuidade de uma trajetória que começou ali, na pista onde Leerdam aprendeu a patinar.
27 de fevereiro de 2026






















