Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A noite europeia devolveu ao futebol italiano algumas imagens que já julgávamos perdidas: velocidade de circulação de bola, intensidade e capacidade de surpreender. Os resultados obtidos pela Atalanta e a exibição quase heroica da Juventus — reduzida a dez jogadores por mais de 80 minutos — reabrem um debate essencial sobre o estado do nosso jogo e sobre o material disponível para trabalhar daqui até os compromissos decisivos.
É evidente que a bola correu depressa em Bergamo e depois em Turim; trata-se de um indicador prático: quando as circunstâncias favorecem ritmos elevados, ainda temos time e técnica para competir com as melhores pistas europeias. Esse é o ponto que deve interessar ao observador mais clínico, como o treinador nacional: o repertório existe, mesmo que a aplicação seja irregular.
Um panorama das dezesseis classificadas para as oitavas faz cair outra narrativa recorrente: a alegada impossibilidade de disputar campeonato nacional e Champions simultaneamente. Entre as 16 ficaram colocadas equipes que lideram ou dominam suas ligas — primeiro e segundo da Premier, três representantes fortes da Espanha, duplas de Alemanha e França e até a primeira da Super Lig turca — e apenas uma entre as classificadas é a sétima colocada da Série A. O contexto confirma que, no futebol de elite, a luta é integral e exige respostas constantes nas múltiplas frentes.
Não se trata, porém, de minimizar o papel do scudetto: o conforto de dez pontos que a Inter ostenta sobre a segunda colocada dá margem para gestão. Ainda assim, a leitura do que foi exibido revela que alguns jogadores e posturas defensivas entregaram a prioridade do clube sem disfarces. É legítima a crítica de que o elenco montado, nesta temporada, não parece feito para uma caminhada tranquila até a taça europeia — a campanha anterior continha façanhas de difícil repetição —, mas a diferença prática entre cair nos playoffs, ser eliminado na fase de grupos (como aconteceu com o Napoli) ou render nos mata-matas é enorme para a visão estratégica do clube.
As partidas em Bergamo e Turim confirmam outra máxima: o acaso e as circunstâncias condicionalizam muito a partida única. A Atalanta encontrou o gol já aos cinco minutos, e a Juventus teve o seu tento decisivo antes dos 35 minutos — fatores que moldaram a leitura do jogo. O Borussia Dortmund, por sua vez, viu-se reduzido logo no início, e a combinação entre a ansiedade alemã e o ímpeto bergamasco abriu um fosso difícil de transpor. Na Juventus, a expulsão de Kelly funcionou como catalisador de uma reação humana e tática: um time de dez que parece insuficiente diante de onze adversários em chamas só expõe a dinâmica imprevisível do futebol.
Do ponto de vista nacional, há sinais encorajadores. Em meio ao chamado “flop” da Inter, surgiram notas positivas: as exibições de Esposito e Dimarco oferecem ao seleccionador nacional argumentos para acreditar em opções úteis durante os playoffs. Não é pouco: jogadores que se destacam em jogos europeus colocam-se à prova em contextos de alta pressão e podem reconfigurar escolhas táticas e de formação.
Ao fim e ao cabo, o que as noites de Champions mostraram foi dupla: por um lado, que o futebol italiano ainda produz momentos de alta intensidade e beleza coletiva; por outro, que a vocação à irregularidade — seja por montagem de elencos, seja por gestão de prioridades — continua a ser um obstáculo. O desafio para clubes, treinadores e seleção é transformar lampejos em consistência, traduzindo ritmo em método e talento em rendimento sustentável.






















