Marco Bezzecchi chega ao novo ciclo da MotoGP carregando não apenas resultados, mas uma narrativa construída em equipe e continuidade. O piloto de Rimini, cujo contrato com a Aprilia foi renovado em fevereiro, é hoje o símbolo de uma aposta que virou projeto: venceu as duas últimas corridas de 2025, concluiu a temporada no terceiro posto e, nos testes na Tailândia, assinou o novo recorde do circuito onde a temporada se abrirá no domingo.
Na conversa, Bezzecchi adota um tom comedido ao avaliar expectativas: “Penso che servirà qualche Gp prima che il campionato riveli i valori in campo” — ou seja, espera que seja preciso aguardar algumas etapas para que os verdadeiros equilíbrios se mostrem. Ainda assim, o piloto evita reduzir a disputa a um duelo fechado entre fabricantes: embora muitos apontem o confronto direto entre Ducati e Aprilia, ele prefere ver um panorama mais amplo: “Credo di più a un confronto allargato”.
Questionado sobre a pressão, não hesita ao atribuí-la sobretudo à Ducati, campeã no ano anterior: “La pressione riguarda la Ducati, perché ha vinto l’anno scorso”. É um diagnóstico que combina realismo esportivo e consciência do peso simbólico das marcas no paddock: a vencedora tem de justificar o título, os perseguidores têm a liberdade — e a obrigação — de provar que a hierarquia pode ser alterada.
A renovação com a Aprilia — anunciada em fevereiro — é, para Bezzecchi, sinal de uma “fiducia reciproca”: a equipe acreditou nele em um momento difícil e ele recusou ofertas externas para manter um projeto que vê como sólido e voltado ao futuro. “Ho avuto altre offerte, ma ho deciso di proseguire perché puntavo a una collaborazione solida, proiettata nel futuro”, diz ele, enfatizando a natureza coletiva dos progressos: “Sulla moto salgo io, ma quello che s’è visto in pista è frutto di un bel lavoro di squadra”.
Massimo Rivola, CEO da Aprilia Racing, qualificou a ligação como um matrimônio promissor — avaliação que o piloto recebe com discrição mas também com satisfação: “Il futuro non è prevedibile, ma qui sto veramente bene”. O discurso de Bezzecchi revela a consciência de que projetos duradouros dependem menos de estrelismo e mais de estabilidade institucional, técnica e humana.
Sobre rivais diretos, Bezzecchi aponta Marc Márquez como favorito pela condição de campeão em título, mas não perde a serenidade: “Se parti spaventato, parti sconfitto. E io non lo ero nemmeno l’anno scorso”. A postura sintetiza bem sua personalidade descrita pela imprensa — intensa no trabalho, direta nas relações e funda nos valores herdados da família e do convívio com figuras como Valentino Rossi, que participou de sua formação na Academy.
Quando a entrevista toca em relações mais imediatas dentro do grid — a especulação sobre um eventual convívio com nomes como Bagnaia — Bezzecchi responde com clareza: fora dos box o diálogo pode existir, mas em pista a rivalidade permanece. É uma lembrança de que, mesmo em tempos de contratos e estratégias corporativas, o elemento competitivo conserva sua centralidade.
Como analista que busca entender o esporte além do resultado, é possível ver em Bezzecchi um caso contemporâneo de construção: um piloto que incorpora memória (a linhagem da escola italiana), modernidade técnica (a sinergia com uma fábrica em ascenção) e uma leitura política do paddock (contratos, pressões e expectativas). O que está em jogo, nas primeiras voltas do campeonato, é menos a afirmação de uma personalidade isolada e mais a capacidade de um projeto coletivo de transformar promessa em conquista.
Otávio Marchesini — Espresso Italia






















