Niccolò Perico tem 11 anos, cabelos loiros curtos e um currículo de infância que já se assemelha ao roteiro de um aprendiz de piloto forjado nas duras escolas do automobilismo. Não se trata apenas de vitórias em kart — trata-se de uma formação construída com método, risco calculado e uma narrativa familiar que remete às raízes do esporte motorizado italiano.
Como descreve quem acompanhou sua trajetória, Niccolò entrou no programa júnior da Mercedes muito jovem, num caminho que lembra o de outros talentos precoces como Antonelli. A escolha de Toto Wolff, que o convidou a atuar como coach driver do próprio filho, Jack Wolff (kartista nascido em 2017), confirma a seriedade do investimento: não apenas um nome na lista de promessas, mas um atleta preparado para integrar uma rede profissional de formação.
A história, porém, começa antes das luzes e contratos. O pai, Alessandro Perico, antigo piloto de rali com conquistas nacionais e carreira profissional até 2017, foi o arquiteto dessa educação atípica. Conta ele que, aos três anos e meio, Niccolò já andava em um go-kart amarrado por uma corda ao veículo do pai; aos seis, guiava uma Mitsubishi Lancer Evo 6 adaptada com pedais rebaixados — derapagens e saltos incluídos — tudo em contextos de treino controlados.
“Aos seis anos íamos a Livigno para treinar no gelo, e depois a pistas com chuva, neve e lama. Em carro ele fazia números que até eu achava inacreditáveis”, recorda Alessandro, sempre enfatizando que os treinos ocorreram em circuitos fechados e com a devida segurança. A mãe, segundo ele, sempre apoiou o projeto familiar.
Para acelerar a formação esportiva, a família buscou arenas menos congestionadas que as italianas: os países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) foram decisivos. Ali, Niccolò pôde competir e treinar mais cedo. Alessandro lembra que o filho chegou a passar um mês sob a tutela exclusiva de um ex-piloto local, morando numa casa de madeira na floresta — uma educação quase artesanal, de imersão e convívio com o ofício.
Originário de Scanzorosciate, na região de Bérgamo, Alessandro construiu sua carreira à moda antiga: mecânico de dia, preparador de carros de corrida à noite, até tornar-se profissional dos ralis e mais tarde gestor de uma equipa e colunista técnico como testador de pneus. É essa experiência prática que moldou o ambiente doméstico de Niccolò, onde o automobilismo entrou como cultura mais do que passatempo.
O percurso técnico do garoto foi acompanhado por referências relevantes: foi confiado a Dino Chiesa, reconhecido por descobrir talentos como Lewis Hamilton e Nico Rosberg, e esteve também sob contrato com a equipe Prema. Informações confirmam que, há cerca de dois anos, a Red Bull mostrou interesse, mas a família preferiu recuar diante dos riscos de queimar etapas num ambiente que consome jovens promessas com rapidez.
Além do brilho individual, a trajetória de Niccolò traz à tona questões maiores sobre formação esportiva — a tensão entre resultados imediatos e desenvolvimento sustentável, o papel das estruturas das grandes equipes europeias e a dimensão identitária do automobilismo italiano, onde oficinas familiares e oficinas de asfalto continuam a ser berço de talentos. A aposta de Toto Wolff, portanto, não é apenas num talento escondido: é numa história de formação que alia técnica, cultura e tempo.
Se encontraremos daqui a alguns anos um novo Kimi ou um candidato a campeão mundial, é cedo para afirmar. O que se mostra palpável é o esforço deliberado de uma família e de uma rede técnica que transformaram infância e território em capital humano. Niccolò é, por ora, a síntese de uma tradição que persiste: pilotos forjados entre oficinas, gelo e kartódromos, com a paciência e a ambição necessárias para atravessar etapas sem se perder no caminho.





















