Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Na história recente do futebol europeu há partidas que ultrapassam o resultado e se transformam em marcos de identidade para clubes e torcidas. A trajetória da Atalanta nas competições continentais oferece vários desses episódios: triunfos inesperados, reviravoltas e noites que ficaram gravadas na memória coletiva de Bérgamo e além.
Antes de tudo, é preciso entender o quadro: a Champions e a Europa League são palcos que amplificam narrativas — do prestígio, das finanças e do simbolismo de desafiar favoritos. Há come-backs lendários que qualquer fã de futebol reconhece de imediato — do 6-1 do Barcelona contra o PSG ao 3-2 do Manchester United sobre o Bayern em 1999, passando pela final de Istambul em 2005. No repertório da Atalanta, contudo, existem capítulos que a transformaram, em pouco tempo, no melhor intérprete italiano do futebol europeu contemporâneo.
O triunfo na final de Dublino, em 22 de maio de 2024, permanece como o ponto alto dessa trajetória. Naquele dia, a equipe de Gian Piero Gasperini enfrentou o poderoso Bayer Leverkusen, time que vinha de temporada quase perfeita — invicto em 51 jogos e líder folgada no campeonato doméstico. Mesmo partindo como zebra, a Atalanta impôs seu estilo e contou com uma noite milagrosa de Lookman, autor dos gols que decidiram o troféu aos 12’, 26’ e 75’. O título da Europa League converteu-se no primeiro e, até agora, único troféu internacional da história do clube: não foi apenas um resultado, mas um ponto de virada para a reputação europeia dos nerazzurri.
Mas a história de Bérgamo na Europa não se limita a Dublin. Sobressaem também as vitórias em estádios que ainda pesam na imaginação coletiva. A noite em Anfield, onde o cântico “This Is Anfield” soou, por algumas horas, mais como um epíteto para a ironia: a Atalanta transformou o templo do Liverpool na sua própria praça de afirmação. Em 11 de abril de 2024, uma atuação fulminante teve como protagonistas Gianluca Scamacca, autor de uma impressionante dupla — aos 38’ do primeiro tempo e aos 60’ da etapa final — e Mario Pašalić, que selou o triunfo com um gol a sete minutos do fim. A equipe acabou perdendo o jogo de volta por 1-0, mas avançou às semifinais graças à vantagem construída em Anfield: um exemplo clássico de viagem europeia que mistura audácia tática e resistência psicológica.
Há ainda a lembrança daquelas noites menos glamorosas nas manchetes, mas igualmente fundadoras: a vitória em Kharkiv, em 12 de dezembro de 2019, sob neve e condições adversas, quando a equipa consolidou sua presença histórica na fase de grupos da Champions. E o triunfo no Mestalla contra o Valencia, já em tempos de pandemia, que provou a capacidade do clube de produzir resultados relevantes em contextos de incerteza e deslocamento.
Esses jogos — sejam finais, quartas em estádios míticos ou confrontos em terrenos hostis — compõem um cânone que explica por que a Atalanta hoje é vista como uma referência do futebol italiano na Europa. Mais do que somar vitórias, a equipe construiu uma narrativa: a de um projeto técnico consistente, de uma capacidade de formar jogadores e de uma identidade que resiste ao tempo e às pressões externas.
Enquanto o clube segue sua rotina de competições e ambições, essas páginas escritas nos anais não servem apenas para celebração. Elas funcionam como espelho crítico: lembram que conquistas são resultado de processos, de escolhas institucionais e de uma cultura esportiva que conecta cidade e clube. E que, em campos grandes ou cobertos de neve, a Atalanta aprendeu a transformar desvantagem em relato coletivo.






















