Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Ontem à noite, no palco do Teatro Abeliano, o que o público assistiu foi mais do que uma apresentação artística: foi a convergência de memória, identidade local e a voz que moldou décadas de narração esportiva em Bari. Michele Salomone, reconhecido como a voz histórica da Radionorba e do próprio Bari, subiu ao palco em parceria com o professor universitário Trifone Gargano para apresentar o espetáculo Figurine, Figuracce, Figure retoriche.
O formato da noite combina narrativas biográficas e futebolísticas com recortes de literatura e análise retórica. A ideia nasceu quando Gargano leu os livros de Salomone, onde o radiocronista reúne anedotas e memórias sobre o clube e a cidade. Numa visita a sua casa, há cerca de dois meses e meio, o professor propôs o projeto e, segundo Salomone, as primeiras sessões de prova foram interrompidas pelo riso: a afinidade entre os dois se manifestou com naturalidade.
O fio condutor da apresentação é a relação entre pequenas e grandes histórias do Bari e as figuras retóricas que as atravessam. Gargano, definido por Salomone como um poço de cultura, reconstrói episódios das narrativas futebolísticas à luz da literatura, enquanto Salomone oferece o testemunho íntimo do cronista que transmitiu emoções para gerações de ouvintes. O espetáculo, além do Teatro Abeliano, pode ter outras datas, embora a agenda do professor prometa abril ocupado — e, com um sorriso, o narrador brinca com a hipótese de receber tomates em cena.
Um dos momentos contados por Salomone remete a uma radiocronaca em Ascoli, quando o adversário havia contratado um jogador chamado Pompini. Ao saber que o atleta seria titular, Salomone percebeu que aquela transmissão soaria diferente das demais, antecipando o humor na sala de imprensa. Recontar esse episódio ao lado de Gargano, autor de obras provocativas, transforma a anedota em ponte entre o trivial e o erudito.
O ano tem um significado especial para o narrador: completa-se meio século desde sua primeira radiocronaca, realizada em 21 de março de 1976, quando o Bari jogou em Trapani. O que começou como um dia qualquer tornou-se, para Salomone, uma carreira de cinco décadas que atravessou transformações tecnológicas, sociais e culturais do rádio esportivo. Para celebrar, no dia 25 de março ele reunirá amigos e colegas no AncheCinema em um encontro que promete ser memorável e emotivo.
Entre as transmissões que mais marcaram sua trajetória está a vitória do Bari sobre a Juventus treinada por Giovanni Trapattoni, na primeira mão dos oitavos de final da Coppa Italia de 1984. O triunfo por 2 a 1, com o gol decisivo de Totò Lopez, gerou uma explosão de entusiasmo que, segundo relatos ouvidos por Salomone, foi vivida em grupos de escuta nas fábricas e no calçadão da cidade — lembranças que reforçam como uma radiocronaca pode atravessar vidas e ritos coletivos.
O encontro entre Salomone e Gargano confirma algo maior: o esporte, narrado com rigor e sensibilidade, torna-se forma de preservação da memória coletiva. No palco do Abeliano, a voz do rádio deixou a cabine sem perder a fidelidade à sua função primeira — conduzir audiências — e mostrou que, mesmo após 50 anos, a radiocronaca continua a ser espaço de invenção cultural.






















