Por Chiara Lombardi — No calor das avaliações pós-primeira noite, Giancarlo Magalli ofereceu ao público uma leitura que vai além do comentário televisivo e toca o tecido simbólico do Festival de Sanremo. Em entrevista no Covo Rolling Stone, o apresentador italiano analisou a interação na estreia, feita em 24 de fevereiro, e não poupou observações sobre a postura de Laura Pausini, a escalação dos Big e a ausência de nomes da comédia capazes de segurar o palco do Ariston.
Magalli disse ter percebido uma Pausini “um pouco nervosa, não totalmente serena” e ponderou sobre a possibilidade de uma tensão com Carlo Conti. Importante: o comentário refere-se especificamente à primeira edição exibida em 24/02, portanto não aborda eventuais evoluções na relação entre os dois durante o festival.
Na leitura de Magalli, essa tensão aparente poderia nascer do lugar difícil que grandes nomes internacionais ocupam num palco tradicional: “Quando você coloca no palco uma cantora extraordinária como ela, com reputação internacional a proteger, é natural que não queira ser reduzida ao papel de simples valletta”, refletiu o apresentador. A frase ecoa uma tensão contemporânea entre estrelato global e as expectativas de formatos televisivos nacionais — o Sanremo como espelho do nosso tempo.
Outra crítica incisiva foi dirigida ao elenco musical: para Magalli, muitos dos chamados Big eram desconhecidos do público típico da Rai1. “Pareciam nomes pouco familiares; só Patty Pravo soava realmente reconhecível. Parece quase um girone de Nuove Proposte”, afirmou, traçando um paralelo contundente entre os concorrentes consagrados e as promessas emergentes. Há aqui um reframe cultural: o festival mantém estrutura histórica, mas o mapa das vozes que chegam ao público mudou — e nem sempre isso encontra acolhimento imediato.
Por fim, uma observação sobre o humor e sua função cívica no palco do Ariston. Magalli lamentou a falta de “grandes comici” que possam segurar a cena. Ele defendeu Pucci, cuja comicidade admira: “Sempre me fez rir. Que o acusem de ser fascista me pareceu fora de lugar. Por que ele haveria de arriscar os fischi no Ariston?” Lembrou também do desconforto de Maurizio Crozza quando foi recebido com hostilidade, descrevendo o artista com olhos perdidos diante do público — um pequeno drama público que revela muito sobre a plateia e o contexto.
O comentário de Magalli se instala, então, como mais que uma crítica de TV: é uma leitura sobre posicionamento, identidade e expectativas — o roteiro oculto que dita como figuras públicas são percebidas quando os holofotes atacam e o público decide. Em tempos de circulação global de artistas, o Sanremo volta a se posicionar como um palco de transtorno cultural, onde cada apresentação funciona como um pequeno espelho do nosso tempo e onde a tensão entre tradição e novidade desenha o eco cultural do festival.
Se a primeira noite foi um ensaio sobre reputações e recepções, as próximas poderão mostrar se a tensão era um incidente de estreia ou o sintoma de um festival em transformação.






















