A repercussão da exibição de Achille Lauro ainda não se apagou quando a conferência de imprensa passa a ferver. As críticas voltam-se, entre outros temas, para a escassa presença de artistas do sexo feminino entre os concorrentes e para um episódio em que Carlo Conti chamou de “mamma d’oro” uma campeã olímpica. Uma jornalista questiona se ele chamaria Eros Ramazzotti de “papà” ou “nonno d’oro”; Conti mantém-se imperturbável nas respostas. Esse é o tom político-administrativo que acompanha a grande maquinaria do festival.
Começa a terceira noite e eu me acomodo no sofá na companhia de Renato. Ele tenta, repetidas vezes, falar comigo durante as apresentações; interrompo para poder ouvir com atenção. Para mantê-lo ocupado, peço que faça buscas rápidas no Google — por exemplo, a idade de Eros Ramazzotti ou de Mogol — um gesto trivial que revela nossa curiosidade persistente sobre o tempo das carreiras, ainda que eu normalmente esqueça os números pouco depois.
No palco das Novidades, Angelica Bove confirma com folga a impressão que deixou: técnica segura e um timbre que ora se fragiliza, ora sobe limpo e sustentado. É uma interpretação que convence a crítica. Na mesma rodada, Nicolò Filippucci entrega uma performance igualmente envolvente; a disputa entre os dois se mostra equilibrada e justa, espetáculo de alto nível entre os novatos.
Ao final, a certificação do júri confirma o que o público já pressentia: o Prêmio della Critica “Mia Martini” — Novas Propostas vai para Angelica Bove. O Prêmio della Sala Stampa “Lucio Dalla” é também atribuído a Angelica Bove. Há visível desalento no rosto de Nicolò Filippucci, mas o laço do festival é imprevisível: o anúncio posterior consagra Nicolò Filippucci como vencedor de Sanremo Nuove Proposte.
As confirmações de gosto continuam com Maria Antonietta e Colombre, cuja canção La felicità e basta reconfirma as impressões da primeira noite: entrosamento, afinação e presença de palco apropriada. O look certo, os sorrisos e a leveza da interpretação os colocam entre as faixas mais apreciadas por quem reporta em tempo real.
Do núcleo masculino, Leo Gassmann (citando como referência o artista que se destaca nesta edição) impõe energia positiva, tanto no canto quanto na recitação que enriquece sua presença. É um equilíbrio entre performance vocal e teatral que chama a atenção pela vitalidade.
O prêmio à carreira vai para Mogol. Os números são impressionantes e foram lembrados no palco: 1.776 canções depositadas na SIAE e cerca de 523 milhões de discos vendidos pelo mundo. Ainda assim, a imagem que prevalece é a do homem, do avô — ternura humana que ofusca momentaneamente o peso histórico do letrista.
Na lista das confirmadas, Malika Ayane entrega Animali notturni, faixa de refrão contagiante. Não parece parte do pelotão que brigará pela vitória final, mas tem fôlego suficiente para sobreviver nas rádios e nas plataformas de streaming. É uma composição que vive além do palco do Ariston.
O momento que buscava uma dimensão simbólica ficou por conta de Laura Pausini: vestida de branco, acompanhada pelo Piccolo Coro dell’Antoniano e pelo coro de Caivano, a cantora apresentou o que foi vendido como um mensagem planetária. No fundo do palco, a frase gigante Make music not war iluminou a cena. A execução foi impecável, o espetáculo — luxuoso. Resta a pergunta prática: surtirá efeito?
Coloco a questão de forma direta: em meio ao aparato tecnológico e ao cenário de luzes, quem efetivamente toma decisões em nível global assistirá a esse apelo e mudará a conduta? Ou a canção, por mais bonita e bem interpretada por Laura Pausini, permanece em um plano simbólico destinado ao público e às redes sociais, sem eco nas salas de comando de onde se definem conflitos?
É uma dúvida legítima, que atravessa a terceira noite do festival. Sanremo segue sendo, ao mesmo tempo, palco de ambições musicais e termômetro de clivagens culturais: entre a performance artística e a expectativa pública, entre o gesto simbólico e a política concreta. E enquanto se apagam as luzes do Ariston, as músicas voltam ao cotidiano dos ouvintes; os prêmios ficam, os debates continuam.






















