Por Chiara Lombardi — Em um capítulo que parece escrito por um roteirista de finais incertos, Netflix desistiu da corrida pela aquisição da histórica Warner Bros, abrindo caminho para que a aliança Paramount-Skydance fechasse o negócio por impressionantes 111 bilhões de dólares. A guinada, noticiada na noite desta sexta-feira, redesenha o mapa do entretenimento global e revela, como num espelho do nosso tempo, o entrelaçar do poder político e do capital cultural.
O acordo negociado por Netflix em dezembro, que incluía a compra da Warner e da plataforma HBO Max, havia sido avaliado em cerca de 83 bilhões de dólares. Nos últimos dois meses, porém, a disputa se transformou em um leilão público de ofertas e garantias, até que a proposta final da aliança Paramount-Skydance — equivalente a cerca de 31 dólares por ação — levou a balança para o outro lado.
Fontes da imprensa americana, incluindo a Variety, classificaram a saída da Netflix como outro “choque para o setor”, expressão já usada em dezembro quando o gigante do streaming parecia à frente. Segundo relatos, a reviravolta ocorreu quatro dias antes do prazo final para um novo lance, fixado para 4 de março de 2026.
Na quinta-feira, 26 de fevereiro, o CEO da Netflix, Ted Sarandos, esteve em Washington em tentativas explícitas de pressionar a administração de Trump sobre a operação — uma movimentação interpretada como jogo político além do puramente corporativo. Jornais dos EUA chegaram a afirmar que o presidente favoreceu o amigo Ellison, alimentando a narrativa de que decisões estratégicas no setor cultural também recebem interferências institucionais e pessoais.
Horas depois do anúncio da retirada, Sarandos e o diretor executivo Greg Peters emitiram comunicado defendendo que a fusão que haviam negociado “teria criado valor para os acionistas com um caminho claro para aprovação regulatória”. Contudo, disseram que, para equiparar a última oferta da Paramount, o acordo deixaria de ser atraente economicamente: “Sempre fomos disciplinados — a transação era uma opção “boa de ter” ao preço certo, não um “must have” a qualquer preço”.
O tom público mistura reconhecimento e ressentimento. Os executivos da Netflix agradeceram à administração da Warner, sublinhando que teriam sido “óptimos guardiões das marcas icônicas da WB” e que seu plano fortaleceria a indústria e preservaria empregos. A declaração, porém, não escondeu acusações veladas ao rival, numa breve batalha retórica que acompanha a operação financeira.
Por sua vez, o CEO da Warner, David Zaslav, saudou a diligência da equipe da Netflix e exaltou o processo que levou à decisão final do conselho de administração da companhia. Em linguagem de bastidores, Zaslav preferiu enfatizar a continuidade dos projetos e a proteção das propriedades intelectuais que compõem o acervo da empresa.
Além do valor estratosférico — 111 bilhões —, essa compra sinaliza uma nova geografia do poder cultural: conglomerados com vetores políticos mais próximos ao governo atraem capital e decisões que reverberam na criação, distribuição e memória coletiva. O episódio lembra que o mercado do entretenimento é também um roteiro político, onde alianças e interesses privados moldam o que veremos nas telas e em que termos.
Como observadora do Zeitgeist, não posso deixar de ver essa transação como um reframe da realidade: não é apenas uma negociação entre empresas, mas um movimento que redesenha o cenário narrativo global, com implicações para o emprego criativo, o pluralismo cultural e o próprio catálogo do imaginário contemporâneo.
Enquanto as ações e press-releases se sucedem, a cena que se impõe é a de um setor em transição, onde vencedores e perdedores reescrevem contratos, estratégias e, por vezes, a memória coletiva. E nós, espectadores atentos, acompanhamos o ato final — até que surja o próximo plot twist.






















