Por Giulliano Martini — Na avaliação técnica do festival, a terceira serata de Sanremo trouxe contrastes nítidos: enquanto a execução televisiva das performances brilhou, os números de público em frente à TV registraram recuo. Cruzamento de fontes e apuração in loco indicam que faltam cerca de três milhões de espectadores em relação ao ano passado. A pergunta é direta: por que esses espectadores se foram?
Evito conclusões fáceis e investigo quatro hipóteses, testadas à moda do jornalismo de precisão — checagem de dados, comparação de curvas de audiência e entrevistas com operadores de mídia:
1. Hipótese meteorológica. Historicamente, fins de fevereiro com clima ameno reduzem a permanência doméstica. Nesta semana o tempo tem sido especialmente convidativo fora de casa, e a saída para eventos ou encontros pode ter cortado a audiência ao vivo.
2. Hipótese da saturação. As recentes Olimpíadas produziram um consumo televisivo intenso e prolongado. Ao chegar ao período do festival, parte do público já estava saturada de transmissões de grande escala — resultado: menor apetite por mais televisão ao vivo.
3. Hipótese geracional. A presença massiva de artistas jovens atraiu um público adolescente numeroso, mas também pode ter afastado a faixa dos maiores de 50 anos, que ainda compõe a maioria da audiência tradicional da TV. O saldo demográfico tende, assim, a reduzir o total de espectadores.
4. Hipótese qualitativa. Há críticas sobre a moderação ou dispersão de alguns trechos do espetáculo. Ainda assim, em eventos de massa como Sanremo a qualidade artística raramente explica sozinha quedas expressivas de audiência. Nesta edição, apesar de pontos críticos, existem propostas e momentos de mérito.
No meu raio-x do cotidiano técnico, o elemento mais positivo da noite foi o trabalho de câmera. As gravações em vídeo das canções — regia, cenografia e coreografia — apresentaram soluções criativas e cinematográficas. A alternância entre planos gerais e closes em mãos, pés e instrumentos transformou trechos em verdadeiros videoclipes realizados ao vivo. Essas escolhas cromáticas e de movimento de câmera imergiram as canções numa estética moderna, contribuindo para a experiência sensorial do telespectador.
Portanto, a menor audiência da terceira serata não tem um único culpado identificado sem margem de dúvida. O cruzamento de hipóteses aponta para um conjunto de fatores: condições externas (clima), contexto midiático (Olimpíadas), deslocamento demográfico do público e variáveis qualitativas do espetáculo. Em contrapartida, a evolução técnica das riprese televisive merece ser registrada como avanço relevante.
Conclusão provisória: a fuga de público é multifatorial. Seguirei o monitoramento das próximas noites com a mesma metodologia — cruzamento de dados, entrevistas com responsáveis pela produção e análise das curvas de audiência — para aferir se as tendências se mantêm ou se haverá recuperação. O objetivo é clareza factual, sem ruído, com os fatos brutos sobre a mesa.
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