Por Marco Severini — 25 de fevereiro de 2026
Em um movimento que confirma a disciplina estratégica traçada no plano industrial, Pirelli encerrou 2025 com resultados que consolidam a progressiva melhoria da sua estrutura financeira e operacional. O Grupo reportou receitas orgânicas de €6,8 bilhões, um crescimento de +4,2%, e um EBITDA Adjusted de €1,55 bilhão, em alta de +1,9%. A trajetória de deleverage foi evidente: a dívida líquida caiu para €1,1 bilhão, permitindo ao Conselho propor um dividendo de €0,34 por ação.
O Conselho de Administração de Pirelli & C. SpA reuniu-se para aprovar os resultados preliminares, não auditados, ao 31 de dezembro de 2025, e o orçamento para 2026. Em um cenário externo marcado por tensões geopolíticas, atritos comerciais e elevada volatilidade cambial, a empresa alcançou seus objetivos comunicados ao mercado — um testemunho da resiliência do seu modelo de negócios e da execução disciplinada dos programas previstos no Plano Industrial.
No núcleo da performance está o reforço contínuo do segmento High Value. No universo Car ≥18″, os volumes cresceram +7% (mercado +6%), com ganho de market share tanto no canal Ricambi (+7% vs +6% do mercado) quanto no Primeiro Equipamento (+7% vs +5%). Em contrapartida, a exposição ao segmento Standard reduziu-se (-11% nos volumes Car ≤17″ versus -1% do mercado), em linha com uma estratégia deliberada de maior seletividade, especialmente na América do Sul, para priorizar produtos e canais de maior rentabilidade. O efeito líquido foi volumes Car estáveis, enquanto o mercado global cresceu modestamente (+1%).
Ao longo de 2025, Pirelli alcançou 323 novas homologações com os principais fabricantes dos segmentos Prestige e Premium. O portfólio de homologações da companhia nesses segmentos é — segundo a própria Pirelli — aproximadamente três vezes superior à média dos concorrentes, concentrado sobretudo em caletamentos ≥19″ e nas Specialties. Esse posicionamento fortalece o diferencial competitivo em produtos de maior valor agregado.
No capítulo da inovação, o Grupo ampliou a oferta com o lançamento de nove produtos para Car — entre os quais a quinta edição global do PZero, desenvolvida com recursos de IA e virtualização; a nova geração do Cinturato; Cinturato Winter 3 e Scorpion All Season SF3 para a Europa; ICE Friction e Scorpion XTM All Terrain para a América do Norte; Cinturato P6 e P9 para a região APAC; e Carrier para a América do Sul. Ao lado destes, foram apresentados dois produtos para Moto (Diablo Powercruiser e Scorpion MX32) e quatro para Cycling (Cinturato EVO, PZero Race, Scorpion XC M e XC RC).
Adicionalmente, prosseguiu a expansão do portfólio de clientes para a tecnologia Cyber Tyre, uma plataforma cujo propósito é integrar sensoriamento e serviços digitais ao produto pneu, elevando a proposta de valor para fabricantes e frotas. Essa aposta tecnológica representa, no meu juízo, um movimento estratégico para redesenhar fronteiras invisíveis entre produto físico e ecossistema de dados — um verdadeiro ajuste tectônico na cadeia de valor automotiva.
Andrea Casalucci, CEO da Pirelli, ressaltou que os resultados de 2025 validam a robustez do plano de transformação: “em face de um clima externo adverso, mantivemos foco em mix, inovação e parceria com OEMs, acelerando o desalavancagem financeira”. Em linguagem de tabuleiro, foi um movimento que preservou peças chave e avançou no controle do centro.
Do ponto de vista financeiro, a redução da dívida líquida para €1,1 bilhão e a proposta de dividendo de €0,34 por ação ilustram uma curva de normalização do balanço que reafirma a credibilidade da gestão perante investidores e credores. Para 2026, o orçamento aprovado pelo Conselho mantém um foco conservador: sustentar o crescimento do High Value, consolidar homologações estratégicas e acelerar a monetização de tecnologias digitais associadas ao pneu.
Em suma, Pirelli transita de forma metódica entre pressões externas e ambições internas, movendo-se como um jogador experiente no tabuleiro global: preserva suas melhores peças, avança onde o terreno é mais favorável e reduz exposição onde a margem é estreita. A estabilidade das relações de poder no setor depende, em última instância, de decisões dessa natureza — alicerces que, se bem ancorados, permitem resistir às marés geoeconômicas.






















