Por Stella Ferrari — 25 de fevereiro de 2026
O novo Plano Casa apresentado na Itália traz na sua cifra-símbolo 8 bilhões de euros um ambicioso esforço para transformar a habitação social num sistema único e integrado. O projeto insere-se num pacote mais amplo de intervenções que soma cerca de 33 bilhões, com o objetivo declarado de superar a fragmentação das políticas habitacionais e construir um modelo coordenado que responda à pressão social crescente nas grandes cidades.
O desenho prevê a criação de um sistema único de habitação social onde devem confluir residências estudantis, alojamento para jovens casais, trabalhadores deslocados, idosos frágeis, pessoas com deficiência e núcleos monoparentais. Complementam a proposta um fundo de 660 milhões destinado ao apoio de rendas e à chamada morosidade incolpevole, uma plataforma digital para monitoramento dos interventos e um Comitê Nacional, vinculado ao MIT, responsável por coordenar ajustamentos normativos, planeamento estratégico, instrumentos de financiamento e verificação dos resultados.
A palavra que define a disputa política é governance. Um sistema unificado pode significar racionalização e eficiência: evitar sobreposições, impedir que estudantes e famílias vulneráveis concorram pelas mesmas vagas e trazer maior transparência se a plataforma digital funcionar como ferramenta de controle e não apenas como repositório burocrático.
No entanto, a implementação de um sistema único igualmente configura uma opção clara de centralização. A criação de um comitê nacional que centraliza normas, estratégias e fluxos financeiros é, em termos práticos, o retorno do Estado ao papel de regista do mercado habitacional — não mais como mero corretor das distorções, mas como organizador estrutural.
A pergunta relevante não é se a intervenção pública é necessária — ela é. O problema habitacional nas metrópoles italianas é palpável: preços imobiliários desalinhados com rendimentos, restrições ao crédito, escassez de oferta de locação e tempos urbanísticos que tolhem novos projectos. Milão, Roma, Bolonha e Florença enfrentam tensões que podem transformar o direito à mobilidade numa vantagem apenas para poucos.
O ponto crítico é outro: este plano vai aumentar a oferta habitacional ou apenas redistribuir a existente? Sem uma ação robusta sobre a simplificação urbanística, incentivos fiscais claros à locação e medidas que restabeleçam a atratividade do capital privado para o setor, o risco é que os 8 bilhões se limitem a mitigar tensões em vez de reestruturar o mercado. Ou seja: alivia-se a demanda frágil sem ampliar de forma significativa a disponibilidade de imóveis.
Do ponto de vista de estratégia pública e privada, a calibragem é essencial — como o ajuste fino de um motor: é preciso alinhar regras, incentivos e velocidades administrativas. A ausência dessa integração pode transformar um impulso de modernização num exercício de centralismo administrativo, com efeitos limitados no aumento real da oferta.
A Itália não pode contentar-se em administrar a escassez. Precisa gerar disponibilidade habitacional. Isso exige uma abordagem híbrida: o Estado atua como arquiteto institucional — definindo regras, plataformas e fundos — enquanto remove os freios fiscais e burocráticos que travam a participação do setor privado, estimulando investimentos que alavanquem a oferta.
Como economista e estrategista, vejo no plano uma oportunidade de reengenharia do sistema habitacional — mas a vitória dependerá da execução técnica. Governança robusta, tecnologia eficaz e incentivos bem calibrados serão as peças que determinarão se os 8 bilhões atuam como motor de transformação ou como mera redistribuição.
Stella Ferrari — economista sênior, especialista em políticas de desenvolvimento urbano e mercados de alto desempenho.






















