Stellantis divulgou os resultados do exercício de 2025, revelando um desempenho financeiro que, à primeira vista, desenha um movimento tectônico no tabuleiro da indústria automotiva. A companhia reportou receitas líquidas de €153,5 bilhões, uma queda de 2% em relação a 2024, atribuída sobretudo a efeitos cambiais adversos e à redução dos preços líquidos no primeiro semestre de 2025, parcialmente compensados pelo aumento dos volumes e do mix de produtos.
O balanço contabiliza uma perda líquida ‘monstre’ de €22,3 bilhões, resultado marcado por encargos extraordinários de €25,4 bilhões relacionados, principalmente, à revisão estratégica da empresa com forte impacto dos investimentos em eletrificação. Em linguagem de estratégia, foi um movimento de correção de rota — um sacrifício imediato para recalibrar posições no longo prazo.
John Elkann, Presidente do grupo, esteve no centro da divulgação institucional, enquanto o CEO Antonio Filosa explicitou a leitura executiva: “Nossos resultados refletem o custo da sobrestimação do ritmo da transição energética e a necessidade de reconfigurar o negócio, colocando a liberdade dos clientes no centro, com oferta completa de tecnologias: elétrica, híbrida e a combustão interna.”
Na segunda metade de 2025, a empresa começou a colher sinais positivos. A execução dos lançamentos e as ações para melhorar a qualidade operacional produziram efeito: as entregas consolidadas alcançaram 2,8 milhões de unidades, com crescimento de 277.000 veículos, ou +11% ano a ano. A expansão foi ampla, com todas as regiões registrando aumento de volumes.
Do ponto de vista geográfico e de produto, Stellantis aposta em um redirecionamento clássico de influência por regiões: na América do Norte, o retorno às categorias mid-SUV e muscle-car com motores térmicos é impulsionado por modelos como a Jeep® Cherokee e a Dodge Charger SIXPACK, além do lançamento tardio de 2025 do Ram 1500 HEMI® V8 e do Express. Na América do Sul, o foco é o pick-up Ram Dakota de porte médio; já na Europa ampliada, BEVs e híbridos reforçam presença com a Citroën C5 Aircross BEV, Jeep® Compass BEV e a recém-lançada Fiat 500 Hybrid.
A companhia atribui a melhora operacional à disciplina comercial, ao fortalecimento do portfólio global de marcas e a uma gestão de qualidade mais rigorosa: os problemas reportados no primeiro mês de uso caíram em mais de 50% na América do Norte e em mais de 30% na Europa ampliada desde o início das ações corretivas.
Para 2026, Stellantis projeta que a nova onda de produtos ampliará sua cobertura de mercado e abrirá oportunidades para retomar uma trajetória de crescimento rentável. A direção é clara: acelerar a execução, fechar lacunas herdadas e criar condições para que a empresa recupere margem e estabilidade — um movimento cuidadoso no tabuleiro, onde sacrifícios táticos servem a um objetivo estratégico maior.
Esta leitura exige de observadores e parceiros uma compreensão akin à cartografia estratégica: os alicerces da diplomacia corporativa e das cadeias de valor estão em reconfiguração. Stellantis aposta agora em uma arquitetura de oferta que preserva a liberdade de escolha do consumidor como nodo central, articulando elétrico, híbrido e motor térmico como peças coordenadas de uma nova geografia competitiva.






















