Por Marco Severini — Em um movimento que lembra uma partida de xadrez em ritmo controlado, a governança do Monte dei Paschi di Siena (MPS) volta ao centro do tabuleiro político-financeiro italiano. Nos dias que antecedem a renovação do Conselho de Administração, o nome de Corrado Passera, fundador e CEO da Illimity e figura conhecida da alta administração e das instituições italianas, emergiu entre os potenciais candidatos a integrar — e possivelmente presidir — o próximo board de Piazza Salimbeni.
Contexto institucional e o momento decisivo
A indicação de Passera surge num momento em que o MPS atravessa uma fase de redefinição estrutural: após a conclusão de uma operação de delisting e a aquisição envolvendo Mediobanca, a instituição senese encontra-se em processo de reordenamento de seus alicerces administrativos e estratégicos, preparando-se para a assembleia de acionistas. Nesse sentido, a escolha dos conselheiros assume caráter decisivo para o desenho do futuro institucional e operacional do banco.
Importa notar que, no novo contexto regulatório do sistema bancário italiano, a recente lei que altera as modalidades de voto introduz um fator adicional de complexidade: os acionistas passam a votar cada conselheiro individualmente, em vez de ratificarem listas atreladas a um único candidato à presidência. Este ajuste processual transforma a eleição em uma série de vetores independentes, tornando a composição do conselho objeto de negociações mais refinadas e de maior sensibilidade política.
Perfil e implicações da eventual nomeação de Corrado Passera
O nome de Corrado Passera concilia experiência em bancos, indústria e governo — elementos que, em teoria, reforçam sua aptidão para um papel de peso no conselho do MPS. Ex‑executivo em grandes grupos bancários e ex‑ministro num governo técnico (2011–2013), Passera representa um tipo de liderança que combina competência técnica, know‑how de mercado e legitimidade institucional. Em um tabuleiro onde a estabilidade das relações de poder é condição sine qua non, um presidente com diesen pedigree poderia atuar como um pilar de credibilidade externa e de orientação estratégica interna.
No entanto, convém sublinhar que, até o momento, não há indicações formais por parte dos principais stakeholders sobre sua nomeação para a presidência. Diversos órgãos de imprensa citam o seu nome como hipótese plausível, mas a dinâmica de voto individual e a heterogeneidade dos interesses acionistas mantêm a questão aberta.
O episódio da “scalata” e a defesa de Luigi Lovaglio
Paralelamente às movimentações sobre governança, permanece viva a discussão sobre a chamada “scalata” do MPS em relação à Mediobanca e sobre alegações de concertação entre acionistas de grande porte, citando, entre outros, Delfine Caltagirone. Sobre esse ponto, o advogado penalista Giuseppe Iannaccone, defensor do Diretor‑Executivo Luigi Lovaglio, divulgou uma manifestação pública em reação a declarações prestadas pelo magistrado Roberto Pellicano perante a Comissão Parlamentar de Inchiesta sul Sistema Bancario.
Iannaccone reafirmou a plena correção do comportamento do seu cliente, sublinhando que as ações de Lovaglio respeitaram regras e procedimentos aplicáveis. Embora a declaração do advogado não elimine eventuais investigações ou discussões políticas, ela tem efeito imediato: restabelece uma narrativa de conformidade em torno de um executivo cuja legitimidade é essencial para a estabilidade operacional do banco.
Implicações estratégicas e riscos políticos
Do ponto de vista estratégico, a eventual chegada de um nome como o de Passera ao conselho — e em particular à presidência — seria um movimento destinado a reequilibrar forças e a conferir um projeto de governança capaz de atrair confiança do mercado. Em termos de Realpolitik, trata‑se de uma tentativa de recompor o eixo de influência em torno do MPS, reduzindo incertezas e buscando um consenso mais amplo entre acionistas institucionais e privados.
Contudo, o tabuleiro não é homogêneo. A alteração nas regras de votação fragmenta as coalizões e exige habilidades de negociação mais sofisticadas: cada voto é uma peça a ser conquistada. Além disso, as menções a possibili concerti tra grandi soci e i rilievi di organi investigativi colocam em evidenza a fragilidade dos alicerces políticos que sustentam quaisquer projetos de mudança. Em outras palavras, a tectônica de poder que rege o destino de uma banca storica como MPS é múltipla — e sujeita a deslocamentos rápidos caso novas evidências ou pressões políticas emerjam.
Uma leitura geopolítica e institucional
Enquanto analista que observa a cartografia do poder financeiro, vejo nesta fase do MPS um exemplo clássico de redesenho de fronteiras invisíveis: não se trata apenas de escolher um presidente, mas de reconfigurar as relações entre capital, governança e legitimidade pública. Um gestor com o perfil de Passera funcionaria como um arquiteto, capaz de projetar estruturas de governança que convertam o capital político residual em estabilidade estratégica.
Ao mesmo tempo, a defesa firme de Lovaglio por parte de Iannaccone é um movimento defensivo que busca proteger a capacidade operacional do banco contra erosões reputacionais. Numa economia onde a confiança é moeda corrente, minimizar incertezas jurídicas e políticas é tão importante quanto fortalecer balanços e carteiras de crédito.
Conclusão: entre prudência e necessidade de liderança
O futuro imediato do Monte dei Paschi di Siena dependerá tanto da capacidade dos acionistas em articular um consenso sobre nomes de alto perfil quanto da resposta institucional a eventuais inchieste e contestações. A hipótese de um presidente como Corrado Passera sintetiza a busca por uma liderança tecnocrática, com profundo conhecimento do setor e habilidade política para navegar as águas, por vezes turbulentas, que cercam bancos sistêmicos.
Do meu ponto de vista, a movimentação das próximas semanas será reveladora: veremos se o banco optará por um movimento de consolidação, buscando a estabilidade através de um presidente de referência, ou se persistirá um jogo mais atomizado que poderá prolongar incertezas. Em qualquer dos casos, o tabuleiro foi redesenhado — e os próximos lances definirão os contornos da governança de uma das mais antigas instituições bancárias da Europa.
Nota do autor: Este texto foi elaborado com base nas informações publicadas em 26 de fevereiro de 2026, e nas declarações públicas relacionadas à governança e aos episódios em curso envolvendo o MPS.





















