Por Marco Severini — A administração dos Estados Unidos decidiu, em um movimento de cuidadosa engenharia diplomática, aliviar parte da pressão econômica sobre a Cuba ao autorizar a importação de petróleo venezuelano com caráter «comercial-humanitário». A medida, formalizada pelo Departamento do Tesouro através de seu braço de controle, o Office of Foreign Assets Control (OFAC), permite que empresas americanas revendam o combustível diretamente ao setor privado cubano, excluindo explicitamente o governo, as forças armadas e entidades controladas por estes.
Em termos de estratégia global, trata-se de um movimento calculado no tabuleiro: Washington busca aliviar a crise humanitária que afeta a população cubana sem, ao mesmo tempo, reforçar os alicerces políticos do regime. A licença, descrita como uma “política favorável” para uso comercial e humanitário — inclusive para necessidades pessoais e familiares — impede que a cadeia de suprimento passe por órgãos estatais ou por hotéis geridos por militares.
Do ponto de vista prático, a norma estabelece limites precisos. As remessas de petróleo venezuelano poderão ser comercializadas por empresas dos Estados Unidos a compradores privados na ilha. Isso significa que ações distributivas que tradicionalmente dependeriam de estruturas estatais agora deverão se apoiar em atores independentes — um redesenho de fronteiras invisíveis entre economia pública e privada que altera a tectônica de poder local.
O anúncio segue relatos de negociações para assegurar interesses das companhias energéticas americanas, enquanto se afirma o objetivo político de cortar benefícios diretos ao aparato estatal cubano. A medida deixa clara a intenção de manter a pressão sobre a cúpula político-militar, ao mesmo tempo em que se busca evitar o colapso de serviços essenciais: eletricidade, transporte público e assistência médica, todos profundamente afetados pela escassez.
Nas periferias do debate surgem figuras centrais do ecossistema econômico cubano. Entre elas, é frequentemente mencionado Raúl Castro — na forma de referência coloquial “Raulito” em alguns relatos — ligado a interesses empresariais associados à GAESA, conglomerado com grande presença na economia da ilha. A exclusão explícita de entes militares e governamentais das transações visa também limitar a capacidade dessas estruturas de capitalizar politicamente sobre a retomada do abastecimento.
Geopoliticamente, a operação tem outra camada: o combustível é venezuelano, e a autorização americana pressupõe canais de controle que assegurem alinhamento comercial com atores que Washington considera aceitáveis. Em linguagem de estratégia, trata‑se de um movimento para reforçar influências e criar corredores econômicos que beneficiem populações civis sem revigorar os alicerces políticos adversários.
As consequências práticas dependerão da implementação: logística, disponibilidade de traders privados cubanos aptos a operar com empresas americanas, e garantias de que o produto não será apropriado por estruturas estatais ao longo da cadeia. No xadrez diplomático, um único movimento pode alterar posições por várias jogadas; aqui, a jogada americana busca manter abertura humanitária enquanto preserva sanções políticas.
Em suma, a autorização do OFAC representa um ajuste fino na política de pressão contra o regime cubano, ao mesmo tempo em que tenta evitar uma catástrofe humanitária. É uma expressão de Realpolitik: administrar riscos, proteger populações vulneráveis e, ao mesmo tempo, vigiar os caminhos pelos quais a influência e os recursos fluem no tabuleiro caribenho.






















