Por Marco Severini
Um pronunciamento acolhedor e, ao mesmo tempo, marcado por uma linha vermelha: é assim que deve ser lido o comunicado recente de fontes do Hezbollah à AFP, segundo o qual o movimento libanês estaria disposto a não intervir militarmente caso os Estados Unidos realizem ataques limitados contra o Irã. Contudo, a mesma fonte sublinha que existe uma fronteira intransponível: a proteção da figura do líder supremo, Ali Khamenei. “Atacaremos apenas se a segurança da Guida Suprema for visada” foi a mensagem.
Na tessitura desta declaração desenha-se um duplo objetivo estratégico. Por um lado, o Hezbollah busca reduzir a escalada imediata, evitando um deslocamento maciço do conflito para o sul do Líbano. Por outro, reafirma a lógica de eixo da Resistência Islâmica e preserva, como em um lance de xadrez, a proteção das peças-chave que sustentam o desenho regional do poder.
Fontes diplomáticas e relatórios de inteligência indicam que, nas últimas horas, Teerã tentou abrir uma via de negociação em Genebra: segundo apurações, a República islâmica teria oferecido a Washington investimentos em reservas de petróleo, gás e concessões minerais como contrapartida para evitar um ataque. A oferta, dirigida ao círculo decisório americano, visa explorar a propensão presidencial por acordos vantajosos e reduzir o ímpeto belicista.
É necessário observar o contexto mais amplo: analistas já advertiam sobre a pressão exercida por Teerã sobre aliados — entre estes o Hezbollah — para uma maior participação em caso de confronto com Israel e os Estados Unidos. Rumores sobre planos da IDF para uma possível “maxi-ofensiva” no Líbano e sinais de mobilização na Síria, no Iêmen (com os Houthi) e em Gaza (com o Hamas) configuram um cenário de contagio tático que pode transformar um ataque limitado numa conflagração regional.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de uma arquitetura frágil: os mecanismos de dissuasão e as linhas de comando estão sobre alicerces que podem rachar se um ator decidir mirar no topo da hierarquia iraniana. A promessa do Hezbollah de recusar uma intervenção imediata é, portanto, uma tentativa de preservar a estabilidade do tabuleiro; a ameaça de represália caso Khamenei seja atingido é a garantia última da resistência, uma cláusula de salvação estratégica.
Como analista, reconheço aqui a operação dupla típica da diplomacia dos eixos: mitigar a escalada pública enquanto se mantém, nos bastidores, a capacidade de elevar custos — uma espécie de rede de segurança que funcione como aviso e como dissuasor. O equilíbrio permanece tênue: basta um movimento decisivo para que as fronteiras invisíveis se desloquem e a tectônica de poder regional seja redesenhada.
Em suma, a declaração do Hezbollah é simultaneamente conciliatória e condicionante. Mantém aberta a via diplomática, sem renunciar ao potencial de resposta que preserva os interesses do Eixo da Resistência. Entre a oferta de Teerã e a retórica beligerante, o mundo observa um redesenho de liberação estratégica que pode redefinir, em breve, os próximos lances no tabuleiro do Oriente Médio.






















