Por Marco Severini
O novo relatório do Committee to Protect Journalists (CPJ), publicado em 25 de fevereiro de 2026, desenha um quadro sombrio sobre a segurança da imprensa no ano anterior. Segundo a organização, 2025 foi o ano mais letal para a imprensa em mais de três décadas de monitoramento: 129 jornalistas e profissionais de mídia foram mortos globalmente, e aproximadamente 86 dessas mortes — cerca de dois terços — foram atribuídas a ações militares do Estado de Israel.
Essa estatística posiciona Israel pelo terceiro ano consecutivo como o país mais perigoso do mundo para quem cobre conflitos. O CPJ afirma ainda que, desde o início de sua documentação sistemática, em 1992, nenhum outro exército teria praticado tantas mortes deliberadas de jornalistas. No total, 47 casos de 2025 foram classificados como assassinatos deliberados, dos quais 81% foram atribuídos às forças israelenses.
A maioria das vítimas atingidas pelo fogo israelense, segundo o relatório, eram jornalistas palestinos empenhados na cobertura da situação na Faixa de Gaza. O CPJ também denuncia padrões de detenção e maus-tratos a profissionais de mídia palestinos, incluindo alegações de tortura, estupro e recusa de assistência médica a detidos — elementos que, na narrativa da organização, compõem uma estratégia sistemática de intimidação.
Em paralelo, as autoridades israelenses aprovaram o banimento de cinco órgãos de imprensa palestinos, rotulando-os como “organizações terroristas” sob a acusação genérica de “incitamento”. O governo não teria apresentado provas públicas que sustentem essas qualificações, gerando críticas de grupos de direitos humanos e organizações de imprensa.
O relatório do CPJ é acompanhado por vozes críticas internamente: denúncias de whistleblowers afirmam que a própria entidade teria sido pressionada a suavizar relatos para não antagonizar doadores filo-israelenses. São acusações que, se confirmadas, apontariam para fricções sérias na arquitetura da defesa da liberdade de imprensa.
Como analista com décadas de observação da tectônica de poder no Oriente Médio, observo neste episódio um movimento decisivo no tabuleiro — não apenas humanitário, mas também estratégico. O padrão de vítimas, a criminalização de mídias e as alegações de abuso a jornalistas detidos representam alicerces frágeis da diplomacia e da credibilidade institucional. A habilidade das potências e das organizações internacionais em responder com investigações independentes e mecanismo de responsabilização será crucial para evitar um redesenho de fronteiras invisíveis no campo da informação.
O CPJ conclui afirmando que “os jornalistas estão sendo mortos em número recorde justamente quando o acesso à informação é mais vital”. Essa constatação ecoa, diplomaticamente, como um alerta: a perda de vidas profissionais e a erosão das garantias de reportagem livre minam a própria capacidade das sociedades de formar decisões informadas — um risco estrutural para a estabilidade regional e para a ordem internacional.
Em suma, o relatório não é apenas um inventário de vítimas; é um diagnóstico sobre a crise contemporânea da imprensa em zonas de conflito e sobre os vetores estratégicos que a alimentam. A resposta internacional — judicial, diplomática e de proteção a jornalistas — definirá se este será um capítulo de agravamento ou um ponto de inflexão para restaurar minimamente os alicerces da liberdade de informação.






















