Gaza oferece imagens que pesam como alicerces quebrados na história contemporânea: fossas comuns no pátio de hospitais, pacientes encontrados mortos nas camas com sinais de atendimento médico ainda visíveis, e corpos sepultados ou dilacerados por bulldozers. As evidências reunidas por agências internacionais e organizações de direitos humanos compõem um quadro que exige resposta da diplomacia global.
No Al-Shifa Medical Complex, em Gaza City — o maior complexo hospitalar da Faixa — equipes de resgate palestinas, após a retirada das forças israelenses em 1º de abril de 2024, começaram a escavar e encontraram múltiplas fossas comuns no pátio. Segundo relatos, cerca de 300 corpos foram exumados no Al-Shifa e outras 400 no Complexo Hospitalar Nasser, em Khan Yunis. Muitos dos cadáveres exibiam cateteres urinários, talas ortopédicas e documentos médicos — sinais de que se tratava de pacientes que estavam sob cuidados quando foram mortos. Em dezenas de casos foram observadas mãos amarradas, elemento que, para o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR), “indica graves violações do direito internacional dos direitos humanos e do direito internacional humanitário”.
Relatórios da OMS, de Médicos Sem Fronteiras (MSF), da UNRWA e do Euro-Med Human Rights Monitor consolidam um padrão preocupante: desde outubro de 2023 houve, pela primeira vez na dinâmica deste conflito, uma proliferação documentada de cemitérios improvisados e fossas por toda a Faixa de Gaza — mais de 120 locais reportados. O Euro-Med Monitor também descreve ataques direcionados a cemitérios regulares, com pelo menos 12 desses locais atacados e túmulos deliberadamente violados por bulldozers que desenterraram e deslocaram centenas de corpos.
Esses elementos foram integrados a memorandos probatórios entregues ao time jurídico sul-africano que promove ação perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ). A documentação, além das exumações e das imagens forenses, inclui testemunhos de equipes de resgate e registros hospitalares que apontam para um padrão que transcende episódios isolados.
Do ponto de vista jurídico e humanitário, a presença de vítimas com membros atados e de pacientes mortos em leitos demanda investigação independente, transparente e com acesso forense qualificado. A comunidade internacional enfrenta, assim, um movimento decisivo no tabuleiro: ou se promove uma investigação robusta que esclareça responsabilidades, ou se permite que os alicerces frágeis da diplomacia cedam a narrativas irreconciliáveis.
Além do imperativo humanitário, há uma dimensão estratégica. A destruição sistemática de infraestruturas de saúde, a profanação de cemitérios e o enterro massivo em condições que impedem identificação e sepultamento digno redesenham, silenciosamente, as linhas de sofrimento e memória coletiva — uma espécie de “redesenho de fronteiras invisíveis” que afetará a estabilidade regional por longos anos.
Autoridades do OHCHR indicam que investigações estão em andamento para corroborar os números palestinos e consolidar provas. Enquanto isso, organizações médicas e humanitárias pedem acesso seguro e garantias para documentar e preservar vestígios. Sem esse trabalho forense e sem responsabilização, a tectônica de poder na região continuará a se mover sem reparação para as vítimas.
Como analista, observo que a resposta internacional não deve se limitar a declarações de horror. É preciso construir mecanismos práticos: equipes forenses internacionais, proteção judicial aos testemunhos, e um esforço coordenado entre agências das Nações Unidas e organizações independentes. Apenas assim se poderá, com medida e firmeza, restabelecer alguma confiança nos processos que regem o direito internacional humanitário — e evitar que atrocidades documentadas em hospitais se convertam em precedentes permanentes.
Em suma, os relatos sobre fossas comuns, mãos amarradas e sepultamentos feitos por bulldozers no interior de complexos hospitalares em Gaza configuram uma acusação objetiva contra as práticas observadas no terreno. O próximo movimento no tabuleiro exigirá vontade política e arquitetura institucional capaz de transformar provas em responsabilidade.






















