Padova — Em referência ao Dia Mundial das Doenças Raras (28 de fevereiro), a trajetória de Sarah, 11 anos, expõe com nitidez o duplo desafio enfrentado por famílias: a luta contra uma doença degenerativa e a resistência à burocracia institucional. A menina vive com Síndrome de Leigh, uma enfermidade genética que compromete os mitocôndrios e impõe perdas funcionais progressivas.
A apuração in loco e o cruzamento de fontes documentam um quadro iniciado nos primeiros meses de vida: aos seis meses surgiram os primeiros sinais de crescimento interrompido; aos três anos, a primeira lesão cerebral provocou a perda, em uma única semana, da capacidade de caminhar e de falar. O percurso clínico manteve episódios críticos, com 2025 marcado por intervenções invasivas — traqueostomia, gastrostomia — e por um episódio de edema cerebral que agravou a condição.
O relato factual ganha dimensão pública pela imagem forte — e verificada — de Sarah dançando sobre a sua cadeira de rodas em um dos teatros históricos de Pádua, diante de 700 pessoas. “Se fecho os olhos, ainda escuto o batimento acelerado do público e o silêncio suspenso de setecentas pessoas”, descreve Laura, mãe de Sarah, em relato direto e sem artifícios. “Minha filha está no centro do palco; está na cadeira que a acompanha diariamente, mas naquele instante — continua Laura — parecia que não existia gravidade. Ela dança, sorri e mostra que, embora o corpo tenha limites, a alma permanece livre.”
Por trás desse gesto simbólico, no entanto, há uma rotina de embates administrativos e pessoais. Laura faz um apelo claro: “Não pedimos milagres, pedimos dignidade e compreensão”. Ela denuncia perguntas cruéis — se vale a pena gastar recursos em uma criança considerada sem futuro — e reclama que o sistema obriga famílias a comprovar anualmente que uma doença genética degenerativa “não está curada”. Entre as demandas destacam-se escolas equipadas para inclusão, acesso garantido a medicamentos galênicos com formulação adequada e o fim do isolamento institucional das famílias.
A causa encontra respaldo em entidades especializadas. A Fondazione La Miglior Vita Possibile atua na sensibilização sobre a relevância dos cuidados paliativos pediátricos e presta apoio ao Hospice Pediátrico de Pádua, espaço que a família define como uma “segunda casa”. Giuseppe Zaccaria, presidente da Fundação, sintetiza a posição técnica e ética: o atendimento a crianças frágeis e portadoras de doenças raras é antes de tudo uma exigência ética e um direito à saúde que o sistema deve garantir.
Do ponto de vista jornalístico, o caso de Sarah funciona como um raio-x do cotidiano de muitas famílias afetadas por patologias raras: sofrimento clínico, necessidade de intervenção paliativa, enfrentamento de procedimentos administrativos e busca por inclusão social. A demanda principal é institucional e concreta — menos barreiras, mais assistência e políticas públicas que reconheçam o valor da vida diária dessas crianças.
Fatos brutos: menina de 11 anos, diagnóstico confirmado de Síndrome de Leigh, perda de marcha e fala aos três anos, intervenções médicas significativas em 2025 e apresentação pública em teatro de Pádua com 700 espectadores. Declarações verificadas pela reportagem provêm da mãe, da direção do hospice e da Fundação La Miglior Vita Possibile.
A realidade traduzida por este caso não aceita reducionismos: a felicidade de Sarah, sua força e seu sorriso não são custos a serem calculados, mas valores a serem protegidos por políticas públicas que removam obstáculos e assegurem dignidade.






















