Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. Enquanto o Festival de Sanremo movimenta plateias, polêmicas e lembranças coletivas, a verdadeira orquestra que rege a experiência está dentro de nós: o cérebro. Cada canção ouvida, cada refrão cantado e cada aplauso sincronizado acionam uma máquina biológica complexa e coordenada.
“A música é uma das atividades mais complexas que o cérebro humano pode elaborar”, explica o Prof. Paolo Maria Rossini, diretor do Departamento de Neurociências e Neurorabilitação do IRCCS San Raffaele de Roma, em entrevista para esta reportagem. “Envolve simultaneamente áreas auditivas, de linguagem, de ritmo, de memória, de movimento e das emoções”.
O padrão é claro no mapa cerebral: quando ouvimos uma música, acende-se a corteccia auditiva. Ao cantar as palavras, ativam-se circuitos de linguagem no hemisfério esquerdo. Refrões que emocionam disparam o sistema límbico, a central das emoções. Quando uma melodia remete a uma lembrança — como uma viagem ou um verão distante — é o hipocampo que entra em cena para recuperar memórias. Se acompanhamos o compasso com o pé ou tocamos junto, envolvidos ficam o cerebelo e áreas motoras.
“É uma ativação em rede. Quase não há outra experiência capaz de sincronizar tantas funções cerebrais ao mesmo tempo”, acrescenta Rossini. O relato do especialista coincide com estudos internacionais que mapeiam a resposta cerebral à música — do ouvir ativo ao canto e à prática instrumental.
Um dado relevante e replicado por várias pesquisas: mesmo em pacientes com declínio cognitivo ou com doença de Alzheimer, canções aprendidas na juventude frequentemente permanecem preservadas. Em casos de perda da fala após um acidente vascular cerebral, cantar uma canção conhecida pode restaurar, de forma surpreendente, a capacidade de pronunciar palavras. Não se trata de mágica, mas de neurociência.
Os estudos apontam que a atividade musical contribui para a chamada reserva cognitiva — o estoque de conexões neurais que ajuda o cérebro a compensar processos degenerativos por mais tempo. “Não é uma cura para a demência”, pondera Rossini, “mas mantém o cérebro ativo, curioso e estimulado. A música entra sem pedir licença e tende a ficar”.
Na prática jornalística: enquanto o festival discute rankings e crítica, o que realmente corre nas entrelinhas é um diálogo com a memória coletiva e individual. Esta matéria traz o raio-x do cotidiano musical — fatos brutos e verificados sobre como uma melodia pode reestruturar redes neurais e acessar cantos da mente que muitas terapias não alcançam. Fim da reportagem.






















