Por Giuseppe Borgo, correspondente de política e cidadania em Reggio Emilia.
O adeus ao antigo documento de identidade de papel, com seu tom pálido e papel áspero, está marcado no calendário: a partir de 3 de agosto de 2026 a União Europeia impõe que a CIE — a carta d’identità elettronica — passe a ser obrigatória. A mudança não é apenas simbólica; é uma pequena alteração na arquitetura burocrática que terá impacto direto sobre cidadãos, imigrantes e os registros de quem vive fora da Itália.
Em Reggio Emilia o relógio da transição já começou a correr e os números mostram um quadro claro: no ano passado foram emitidas 21.895 carte d’identità, sendo 412 ainda em versão cartacea e 21.483 na versão eletrônica. Em 2024 os números foram maiores: 25.789 documentos, dos quais 1.228 eram em papel e 24.561 eletrônicos. O janeiro deste ano começou em ritmo acelerado: 1.512 documentos emitidos, dos quais 5 em papel e 1.507 eletrônicos.
Esses dados indicam que a adoção da carta d’identità elettronica já é majoritária. Ainda assim, há lacunas importantes a serem preenchidas: entre os residentes do capoluogo há 139 acertos pendentes (pessoas que se mudaram ou se tornaram irreperíveis e que exigem verificação de residência) e, somando aqueles inscritos no AIRE — o cadastro dos italianos residentes no exterior — faltam substituir ou atualizar os documentos de 14.805 reggiani. Em outras palavras, a obra de transição ainda tem muitos alicerces para consolidar.
“No momento para marcar um appuntamento a espera é de dois meses: já estamos sob forte pressão, há um fluxo grande de richieste e estamos nos equipando para aumentar as postazioni do Ufficio Anagrafe”, declara Alberto Bevilacqua, dirigente dos Servizi ai Cittadini do Comune de Reggio Emilia. Bevilacqua acrescenta que a esperança é por uma proroga, dado o caráter complexo da operação e os números significativos envolvidos. A aproximação do referendum constitucional também complica o planejamento logístico dos municípios.
Quem ainda tem a carta d’identità cartacea? Não existe um perfil único: é um fenômeno transversal. Reggio Emilia começou a emitir a CIE em 2017; municípios vizinhos, como Parma, testaram o sistema antes. Mantêm o documento em papel aqueles que obtiveram a identificação em 2017 e cuja validade natural expira no final de 2027 (as carte possuem validade decenal). Outra categoria são as emissões urgentes feitas ao longo dos anos — quando o cidadão precisava viajar e não podia aguardar a emissão eletrônica, foi entregue a versão em papel. Fora isso, a maioria já possui o documento eletrônico: na expiração natural, a versão antiga foi substituída.
Como funciona a substituição? Basicamente, é preciso um appuntamento no Ufficio Anagrafe. Para pessoas idosas não é permitida a delega — a presença pessoal é exigida — mas, se houver limitações de saúde, o serviço domiciliar pode ser ativado mediante comprovação. Um familiar pode iniciar o pedido apresentando um formulário. Todas as instruções oficiais estão na Rete Civica do Comune.
Os proventos da emissão vão para o Estado, que também arca com a produção física das tessere e fornece a instrumentação necessária. O Comune disponibiliza o atendimento e o pessoal administrativo. O custo para o cidadão é de €20, conforme as normas vigentes.
O que significa, na prática, essa alteração para o cotidiano das pessoas e para a máquina pública? Há pelo menos três camadas a considerar:
- Operacional: o incremento de demanda exige mais postazioni, mais pessoal e ajustes de cronogramas — a construção da capacidade do serviço público precisa acompanhar o ritmo da demanda.
- Burocrática: a migração de registros, a gestão dos inscritos na AIRE e as verificações de residência são trabalhos escondidos por trás do papel brilhante da CIE. São os alicerces administrativos que garantem que o novo documento seja efetivamente útil.
- Social: para imigrantes, idosos e cidadãos no exterior, a transição pode significar barreiras se não houver facilitação. O risco é que a obrigatoriedade amplie a exclusão, se não houver pontes efetivas para quem tem dificuldades de acesso.
Como repórter atento à intersecção entre decisões de Roma e vida cotidiana, destaco duas prioridades para derrubar as barreiras burocráticas: primeiro, ampliar as postazioni e simplificar os processos de marcação de appuntamento; segundo, intensificar campanhas de informação dirigidas a públicos específicos (idosos, trabalhadores migrantes, inscritos no AIRE), com instruções claras sobre documentação, custos e alternativas de atendimento domiciliar.
Além disso, é preciso considerar o calendário político: o referendo constitucional em curso pode deslocar recursos e atenção dos Comuni. Isso exige uma coordenação nacional que não trate a emissão da CIE como rotina menor, mas como uma operação de interesse público que toca identidade, mobilidade e direitos civis.
Para o cidadão comum, a recomendação prática é antecipar a substituição. Saber que a espera por um appuntamento pode ser de dois meses serve como alerta: agende com antecedência, verifique a documentação necessária no portal do Comune e, se for idoso ou tiver dificuldades de deslocamento, peça informações sobre o serviço a domicilio. A antecipação é a argamassa que evita o desabamento de planos de viagem ou obrigações administrativas.
Há, também, um ponto fiscal e administrativo a vigiar: a centralização da produção das tessere pelo Estado e o repasse dos proventos alteram a relação financeira entre Estado e Comuni. Embora os custos de fábrica e equipamentos sejam arcados centralmente, a carga administrativa recai sobre os municípios. Isso significa que a construção dessa nova fase exige investimentos locais em trabalhadores, formação e infraestrutura de atendimento — e que se façam sentir menos como um peso da caneta e mais como um reforço dos alicerces do serviço público.
Em última instância, a substituição da carta d’identità cartacea pela CIE é uma operação de modernização necessária, mas que exige gestão cuidadosa para não deixar ninguém para trás. A transição é uma obra coletiva: envolve o Estado que produz, o Comune que atende e o cidadão que precisa. Como em toda obra bem feita, a diferença entre sucesso e falha está nos detalhes da preparação, na coordenação entre os diferentes níveis de governo e na capacidade de manter canais de comunicação claros com a população.
Continuarei acompanhando de perto a evolução da situação em Reggio Emilia — o número de appuntamenti, a resposta do Comune às filas, eventuais prorrogas solicitadas e as campanhas para incluir os 14.805 reggiani ainda fora do registro eletrônico. A meta deve ser clara: uma transição que modernize sem excluir, que construa pontes entre nações e cidadãos e que fortaleça os alicerces da lei e do serviço público.
Se você é morador de Reggio Emilia e ainda não trocou sua carteira de identidade, consulte já a Rete Civica do Comune e procure o Ufficio Anagrafe para agendar seu appuntamento. A hora é de construir, com método e responsabilidade, a nova etapa da identidade cidadã.






















