Sanremo acendeu mais uma vez suas luzes em uma terceira noite que se revelou, como sempre, um espelho do nosso tempo: duetos inesperados, jovens que escrevem seu primeiro capítulo e veteranos que retornam ao palco com histórias incrustadas nas notas. Ao lado de Carlo Conti e Laura Pausini, a noite trouxe como coapresentadores a top model russa Irina Shayk e o humorista Ubaldo Pantani em uma encenação de Lapo Elkann, numa mistura calculada entre glamour e teatro de personagens.
O momento musical mais comentado foi, sem dúvida, o dueto entre Alicia Keys e Eros Ramazzotti: pela primeira vez ao vivo, os dois dividiram o palco em uma estreia mundial depois do dueto em italiano e espanhol de L’Aurora. Foi um desses encontros que funciona como um refrão coletivo — um reframe da realidade pop onde passado e presente se encontram.
A noite também foi marcada pela finalíssima da categoria Nuove Proposte, entre Angelica Bove e Nicolò Filippucci. O triunfo sorriu ao jovem umbro: Nicolò Filippucci, classe 2006, venceu com a canção Laguna. “Sou muito feliz. Obrigado a todos”, disse o vencedor ao receber os aplausos. Já o prêmio da crítica “Mia Martini” foi para Angelica Bove com o comovente Mattone, reconhecimento que fala tanto ao ouvido quanto à memória coletiva.
Na esfera dos veteranos, os 15 big que não se apresentaram na noite anterior retornaram à disputa, submetidos ao veredito combinado do televoto e da Júria das Rádios. Entre eles, o público e a crítica apontaram, em uma seleção sem ordem de classificação, os cinco nomes que se destacaram: Arisa, Sayf, Luché, Serena Brancale e Sal Da Vinci. Esses artistas compõem, nesta edição, um mosaico de estilos que reflete o roteiro oculto da cena musical italiana atual.
Em ordem de aparição no palco da noite estiveram: Maria Antonietta & Colombre, Leo Gassmann, Malika Ayane, Sal Da Vinci, Tredici Pietro, Raf, Francesco Renga, Eddie Brock, Serena Brancale, Samurai Jay, Arisa, Michele Bravi, Luché, Mara Sattei, Sayf e novamente Tredici Pietro — uma sequência que foi votada pelo público via televoto e pela Júria das Rádios.
Antes dos shows, o Teatro Ariston reservou uma noite de homenagens: Mogol recebeu uma emocionante ovação de pé ao ser agraciado com o prêmio à carreira. Aos 89 anos, o letrista falou da sua trajetória — 1.776 canções registradas na SIAE e 523 milhões de discos vendidos no mundo — e emocionou ao lembrar a canção que dedicou à mulher, a letra que “fala do que será quando o tempo mudar nossas vidas, mas sobreviverá o amor”.
Do lado de fora, a cidade tornou-se parte do espetáculo: The Kolors tocaram na praça Colombo enquanto Max Pezzali subiu em um palco flutuante, imagens que ampliaram a sensação de que o festival é um cenário de transformação, um grande set onde passado e futuro discutem suas cenas.
No microcosmo de Sanremo, entre o brilho dos convidados internacionais e a urgência dos jovens talentos, a terceira noite deixou claro que o festival continua a funcionar como um arquivo vivo da cultura pop — um cenário onde emoções, memórias e estratégias artísticas se entrelaçam, convidando o público a olhar além da canção e perceber o que ela espelha de nós.






















