Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que redesenha, ainda que pontualmente, o mapa político do Norte da Inglaterra, os Verdes britânicos conquistaram uma vitória histórica nas eleições suplementares de Gorton e Denton. Com quase 15 mil votos, Hannah Spencer foi eleita, marcando a primeira vez em quase um século que a circunscrição de Gorton não é representada por um parlamentar do Labour.
O resultado expõe fissuras importantes na tática do líder trabalhista, Keir Starmer. O Labour ficou em terceiro lugar, com 5.616 votos, enquanto o Reform UK de Nigel Farage alcançou 10.578 votos e ficou em segundo. A derrota deve intensificar as pressões internas sobre Starmer e alimentar o debate sobre se a estratégia de deslocamento ao centro está alienando a base tradicional do partido — um clássico dilema de alicerces frágeis na governança partidária.
As eleições suplementares foram convocadas após a renúncia de Andrew Gwynne em janeiro, motivada por problemas de saúde; ele também estava sob investigação parlamentar por mensagens ofensivas enviadas em um grupo de WhatsApp. O vácuo deixado e a contestação sobre a escolha de candidatos criaram oportunidades que os adversários exploraram com eficácia — um movimento decisivo no tabuleiro eleitoral.
Analistas e meios britânicos destacam que a derrota de Gorton e Denton não é apenas um revés local: é um indicador de tectônica de poder em curso, com eleitores migrando para alternativas à esquerda e à direita. Em particular, a ascensão dos Verdes indica um redesenho de fronteiras invisíveis no eleitorado urbano do Norte, enquanto o impulso do Reform UK reforça a capacidade de atração de temas nacionalistas e antiestablishment.
Outro ponto sensível é a decisão do partido de impedir que Andy Burnham, popular na região, concorresse como candidato trabalhista em uma área onde possui apoio expressivo. A aparente hesitação do partido central em acomodar lideranças locais será objeto de intensa avaliação interna. O esforço visível do governo — com ministros deslocados para Gorton e Denton — não foi suficiente para conter a derrocada.
Além disso, a liderança de Starmer tem enfrentado semanas turbulentas por causa da nomeação de Peter Mandelson como embaixador no relacionamento com os Estados Unidos, mesmo após revelações de que Mandelson manteve contato com Jeffrey Epstein depois da prisão deste último. Esse episódio acrescenta uma camada de desgaste moral e estratégico à gestão de Starmer, minando a narrativa de renovação que o partido tenta vender ao eleitorado.
Do ponto de vista geoestratégico e eleitoral, trata-se de um recado claro: as correntes internas e externas ao Labour se movem em direções distintas, e a estabilidade do projeto político de Starmer dependerá agora da habilidade de recompor alianças e de reconstruir confiança junto às bases. No tabuleiro da política britânica, esta partida revela que o próximo lance exigirá precisão tática e leitura histórica das camadas sociais que moldam o voto.
Em suma, a vitória dos Verdes em Gorton e Denton é mais do que um triunfo local; é um ponto de inflexão que obriga o Labour a revisar prioridades e estratégias, sob o olhar atento de eleitores e adversários. O movimento deixa claro que, em política, como em xadrez, perder uma casa central pode comprometer a posição de toda a estrutura.






















