Por Giulliano Martini, correspondente do Espresso Italia. Relato e apuração in loco, cruzamento de fontes e fatos brutos.
Nas peças do inquérito que apura a morte de Domenico, o menino que veio a falecer no Monaldi após um transplante de coração supostamente danificado, constam declarações alarmantes de profissionais presentes na sala operatória. Três enfermeiros ouvidos pelos procuradores descrevem o órgão do doador como “uma pietra durissima” — em tradução direta, uma pedra duríssima — e relatam tentativas desesperadas para recuperar sua viabilidade.
As testemunhas detalham que o espianto do coração do paciente foi registrado às 14h18. No entanto, às 14h22, o mesmo coração ainda não constava na sala operatória destinada ao transplante em Napoli. Segundo os depoimentos obtidos pela Procuradoria de Nápoles e consultados pelas defesas, havia incongruências na sequência temporal entre o ato de clampagem e a presença do órgão na sala.
Os enfermeiros relatam que, ao abrir o cestello de transporte, encontraram o coração transformado em um bloco de gelo. A partir daí, descrevem, foram feitos esforços imediatos para “descongelar” o órgão: provammo a scongelare il cuore con acqua fredda, poi tiepida, infine calda, ou seja, tentaram com água fria, depois morna e finalmente quente. Essas tentativas constam em termo como atos de ressuscitação física do tecido, segundo as fontes judiciais.
Outros trechos do processo, vistos pela AGI, revelam clima tenso entre os profissionais nas horas seguintes. Um técnico de sala foi chamado para prestar esclarecimentos ao cardiochirurgo que chefiava a operação. Testemunhas descrevem o tom do médico como minaccioso, ao cobrar explicações sobre o intervalo entre 14h18 e 14h22 — momento em que, segundo depoimentos, quem conduzia o transporte do órgão estava ao telefone com um colega da equipe.
O técnico afirmou que o espianto havia sido realizado quando o coração já estava fora do hospital. A reação do cardiochirurgo, conforme relatos, foi de agressividade física e verbal: teria chutado um radiador e proferido ofensas contra o técnico na frente de outros membros da equipe.
Relatos forenses descrevem que o cestello continha o coração “como um pedaço de gelo”. Os profissionais tentaram então reaquecer o órgão. Em seguida, o cardiochirurgo Guido Oppido tomou a decisão de prosseguir com o trapianto, alegadamente por “assenza di alternative”. O paciente, Domenico, veio a falecer dois meses depois.
Investigações preliminares indicariam que não foram encontradas responsabilidades na cidade de Bolzano relacionadas ao episódio, segundo declaração do advogado da família, Francesco Petruzzi. O NAS de Trento teria ouvido médicos da equipe de Innsbruck e realizado diligências na fronteira para evitar procedimentos mais complexos de cooperação internacional.
Os carabinieri fizeram simulações no hospital onde ocorreu o espianto para identificar a origem do ghiaccio — posteriormente descrito como seco — usado para completar o equipamento de refrigeração antigo empregado no transporte do órgão até Nápoles. A investigação técnica busca mapear quem forneceu o gelo, as condições do refrigerador e as possíveis falhas logísticas que possam ter comprometido o trapianto.
Em conversa com a equipe de apuração, um familiar relatou: “Questa storia è cominciata malissimo e finita peggio. Io sto male…” — depoimento direto que traduz o impacto humano e social do caso. A Promotoria prossegue com a coleta de depoimentos e a análise de registros eletrônicos para estabelecer com precisão a cronologia e as eventuais responsabilizações.
Este jornal seguirá acompanhando o caso com a mesma meticulosidade: apuração in loco, verificação documental e cruzamento de fontes para oferecer a realidade traduzida dos fatos, sem ruído nem especulação.






















