Netflix deu um passo inesperado no grande tabuleiro da indústria audiovisual: anunciou que não elevará sua oferta para a aquisição das atividades de estúdio e streaming da Warner Bros Discovery. A retirada reorganiza instantaneamente a tectônica de poder em Hollywood, colocando a Paramount, hoje associada ao grupo Skydance, numa posição preeminente para fechar um dos maiores negócios do setor na última década.
Segundo fontes públicas e comunicados oficiais, o conselho de administração da Warner Bros Discovery considerou a proposta de Paramount superior à oferta previamente negociada com Netflix. Diante do novo preço exigido para a operação, os dirigentes de Los Gatos concluíram que o negócio não atendia aos seus parâmetros financeiros e decidiram recuar. É um movimento que, em termos de estratégia, assemelha-se a uma peça sacrificada para preservar a posição no meio do tabuleiro.
A oferta de Paramount diferencia-se por pretender uma integração completa das operações da Warner Bros Discovery, incluindo redes de notícia e entretenimento como a CNN e os ativos da Discovery. Esse arranjo colocaria a CNN sob o mesmo guarda-chuva que a CBS, já controlada por Paramount, consolidando dois dos últimos cinco grandes estúdios ainda independentes em Hollywood. O resultado seria um redesenho de fronteiras invisíveis no mapa dos meios de comunicação, com implicações duradouras para cadeias de distribuição, direitos de conteúdo e poder de barganha.
A última proposta que convenceu o conselho da Warner Bros Discovery ofereceu US$ 31 por ação e contou com garantias pessoais de Larry Ellison, magnata da Oracle e aliado político conhecido. O envolvimento de garantias pessoais acrescenta uma camada de firmeza ao lance, especialmente por se tratar de um apoio ligado diretamente a interesses privados e a laços familiares — o executivo David Ellison ocupa atualmente a posição de CEO da Paramount.
Curiosamente, o momento do pronunciamento coincidiu com a visita de Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, à Casa Branca, o que alimentou especulações sobre possíveis conversas de alto nível. Apesar disso, o conselho da Warner sinalizou que a proposta da Paramount era a mais vantajosa, abrindo espaço para a possibilidade de uma disputa pública de ofertas — um lance e contra-lance que o mercado acompanhava com atenção.
Historicamente, tentativas anteriores da Paramount foram rechaçadas por não oferecerem garantias suficientes ou por não atingirem o apetite do conselho. Desta vez, porém, a conjugação do preço por ação e das garantias pessoais alterou a equação. Resta agora aguardar os trâmites formais, diligências regulatórias e as avaliações antitruste que inevitavelmente acompanharão um casamento industrial deste porte.
Do ponto de vista geopolítico e econômico, estamos diante de um movimento decisivo que pode redesenhar cadeias de influência na mídia global. A consolidação proposta promove não apenas sinergias de conteúdo, mas também concentra poder de agenda e distribuição. Em termos de arquitetura do poder, trata-se de uma movimentação meticulosa sobre um tabuleiro que exige cálculo frio: quem controla o conteúdo e os meios, controla margens estratégicas do debate público.
Enquanto as partes se preparam para a próxima rodada, o mercado aguarda sinais mais claros sobre cronogramas, aprovações regulatórias e eventuais rivalidades emergentes. No xadrez corporativo que se desenha, cada oferta e cada garantia são peças que conformam o novo mapa de poder da indústria do entretenimento.





















