Por Chiara Lombardi — A terceira noite do Sanremo 2026 se desenhou como um espelho polido do presente: clássicos restaurados, colaborações transatlânticas e movimentos de palco que dizem mais sobre identidade do que simples espetáculo. A primeira e calorosa ovação da plateia do Ariston foi para o prêmio à carreira entregue a Mogol, a poucos meses de seu 90º aniversário. “A história da música italiana”, celebrou Carlo Conti, e todos se levantaram. O grande letrista, visivelmente emocionado, lembrou ter registrado 1776 canções na SIAE e vendido 523 milhões de discos globalmente — números que soam como créditos finais de um roteiro histórico.
Ainda na esfera das homenagens, houve um momento que funcionou como um refrão ético do festival: Laura Pausini interpretou “Heal the World”, de Michael Jackson, ao lado do Piccolo Coro dell’Antoniano di Bologna. A escolha do repertório, claramente anti-militarista, reverberou como uma nota política sutil — a música como dispositivo de memória e denúncia.
Mas a noite pertenceu de fato às estrelas internacionais e às junções inesperadas. A luz incidentes sobre o piano negro abriu espaço para a entrada de Alicia Keys, que tocou em pé e encantou o Ariston ao lado de Eros Ramazzotti. Foi ele, impulsionado pela voz evocativa de Pippo Baudo, quem subiu o tom com “Adesso tu”, canção que venceu Sanremo há 40 anos. Em seguida, o dueto sobre “L’Aurora” destacou uma tradução simbólica — Alicia cantou em italiano pela primeira vez para “honrar” os avós sicilianos, um gesto de transnacionalidade afetiva que ressignifica a ideia de pertencimento.
O espetáculo teve também seu clímax pop: Alicia encerrou sozinha, voz e piano, com “Empire State of Mind”, e o coro do público pediu bis. Era fácil ler naquele momento a cena como uma moldura cinematográfica — o close na artista, o piano como protagonista silencioso, e o Ariston como plateia que funciona como espelho do nosso tempo.
No campo competitivo, a finalíssima das Nuove Proposte consagrou Nicolò Filippucci como vencedor. Entre os big, a votação do televoto e da giuria delle radio montou uma top five que soa como um barômetro de diversidade estilística: Arisa, Sayf, Luchè, Serena Brancale e Sal Da Vinci.
O ritmo da noite subiu: o público voltou a demonstrar mais energia — um ar mais elétrico em comparação à noite anterior — e os coapresentadores deram pontuais respingos de cor. O imitador Ubaldo Pantani, na pele de Lapo Elkann, provocou risos com sua crítica estilística, enquanto Irina Shayk trouxe o olhar internacional ao palco, com um figurino que não passou despercebido: brilho dental, transparências e costas nuas. “Sou orgulhosamente russa, mas não quero falar de política. Estamos aqui para celebrar a música”, declarou, posicionando o festival novamente como um palco de entretenimento com ecos políticos controlados.
E, como em todo roteiro pensado para surpreender, houve interlúdio pop: Belen Rodriguez apareceu inesperadamente durante a apresentação de Samurai Jay com “Ossessione”. A participação vocal já estava registrada na faixa, mas a aparição física — curta, em playback e intensamente cênica — roubou minutos de atenção e provou que, no festival, a performatividade também manda no enredo.
Sanremo 2026 continua, assim, a se oferecer como um roteiro vivo: mistura memória e projeção, homenagens e choque de gerações, retornos e descobertas. Numa noite em que a música falou tanto quanto refletiu, o Ariston mostrou-se novamente como um espelho — e, às vezes, como uma janela — para o roteiro cultural que nos atravessa.






















