Chegamos a um ponto do Festival em que as justificativas se empilham, mas uma constatação permanece clara: Sanremo 2026 não está funcionando como se esperava — ou, pelo menos, não está à altura das edições recentes. O diagnóstico não é uma simples caça às bruxas contra Carlo Conti, embora o apresentador exerça papel central. O problema parece residir no próprio format, que soa excessivamente impiegatizio — isto é, burocrático, obediente a um manual de procedimentos que mais assegura o funcionamento do mecanismo do que provoca faíscas.
Em vez de agir como um espelho vivo das tensões culturais e da nossa pulsão por novidade, o Festival tem oferecido uma sensação de restauração: uma condução institucional, segura e previsível, que gera um persistente efeito de déjà-vu. Depois da primeira noite havia a oportunidade de introduzir um elemento de ruptura; a segunda, contudo, parece ter sido montada de forma preguiçosa na mesma fórmula, com pouco risco e ainda menos surpresa.
O resultado se traduz em cansaço do formato: muitas horas de transmissão, um número excessivo de canções e um ritmo irregular que não favorece picos consistentes de atenção. Na era do julgamento instantâneo das redes sociais, em que o público celebra cliques e momentos virais, qualquer edição que não alcance esses picos é imediatamente percebida como um fracasso — mesmo que, tecnicamente, mantenha qualidade.
Do outro lado, a presença de Laura Pausini no palco traz um paradoxo. Artista extraordinária, com uma carreira que fala por si, ela aparece visivelmente desconfortável na função de condutora. Não é claro se falta a experiência televisiva — uma espécie de ofício que se aprende por prática e por tutoria — ou se faltou ao seu lado uma direção editorial que a integrasse de modo natural ao couro do programa. O tom, muitas vezes, aproxima-se do cerimonial: polido, mas pouco capaz de gerar o evento.
Mesmo momentos de emoção genuína — como o tributo de Achille Lauro, acompanhado pela soprano Valentina Gargano e um coro de vinte vozes em lembrança das vítimas de Crans-Montana — não conseguiram inverter a percepção geral. Homenagens a nomes consagrados como Pippo Baudo, Peppe Vessicchio e Ornella Vanoni soaram corretas, mas não incendiaram a narrativa como se esperava. É a velha lição que Fabio Fazio costumava ensinar: a construção do evento exige um roteiro oculto, direção de palco e riscos calculados — elementos que, neste caso, pareceram aquém.
Outra falha notável é a ausência de fenômenos — artistas que, por sua energia geracional ou força streaming, consigam puxar a conversa pública para além dos círculos tradicionais. Nos últimos anos, a presença de nomes percebidos como geracionais contribuiu decisivamente para o impacto midiático do Festival. Sem eles, a performance coletiva perde amplitude e a plateia jovem se distancia.
Em suma, o que vemos é uma combinação de fatores: um format que privilegia a execução segura em detrimento da experimentação; uma dupla de apresentação que não encontra sinergia plena; e um elenco sem os chamados “fenômenos” capazes de catalisar um novo ciclo de interesse. O Festival vive, hoje, entre o clássico e o contemporâneo, mas falta-lhe uma ponte clara — um reframing que reconecte tradição e urgência cultural.
Como observadora do zeitgeist, proponho ler essa crise não apenas como queda de audiência, mas como sintoma: o público está mudando, a gramática do espetáculo mudou com o streaming e as redes, e o roteiro televisivo precisa urgentemente se reescrever. Sanremo pode voltar a ser espelho do nosso tempo — basta que os arquitetos do palco assumam o risco de quebrar o espelho polido e revelar, sob ele, cenários de transformação.






















