Sanremo 2026 ganhou, entre canções e aplausos, um pequeno mas significativo confronto que diz muito sobre o estado cultural do país. Durante uma conferência de imprensa, o jornalista Roberto Dall’Acqua perguntou às integrantes das Bambole Di Pezza se não achavam que a palavra feminista já soava um tanto ultrapassada e divisiva. A reação da banda feminina foi imediata e firme: “A palavra feminista nos agrada muito. Numa sociedade em que ainda não existe a paridade, não somos contra o masculino, buscamos apenas igualdade”.
Essa troca de farpas — discreta, sem gritos, mas carregada de significado — funciona como um espelho do nosso tempo. É curioso como um festival de música, palco tradicionalmente associado ao entretenimento, reverbera também como um microcosmo do debate social. A discussão acendeu justamente por mostrar que, mesmo em 2026, é preciso reiterar temas que muitos insistem em considerar “resolvidos”.
Dall’Acqua insistiu em uma visão doméstica: “A Itália não é più una società patriarcale — por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher, em minha casa quem manda é minha mulher. Se vocês têm um companheiro, desafio vocês a dizer que não mandam na relação”. A resposta das Bambole Di Pezza buscou deslocar o foco para o espaço público: “Não queremos ter poder em casa, mas fora. A paridade salarial não existe, e a violência contra a mulher é um problema sistêmico, não reduzível a episódios isolados. Ninguém diz que um homem não possa ser vítima, mas a desigualdade e a violência de gênero são estruturais na nossa sociedade”.
Mais tarde, no Ariston Roof, as integrantes reiteraram que a provocação inicial as aqueceu, mas que permanecem firmes no apontamento: os dados confirmam a necessidade de manter o debate sobre paridade e violência de gênero. As músicos também celebraram carregar uma “quota rosa” no palco: são a primeira banda feminina a se apresentar no Ariston, um fato que simboliza avanços e contradições ao mesmo tempo.
A escassez de mulheres entre os “Big” deste Sanremo — pouco mais de um terço, conforme admitido por Carlo Conti — foi tema também de declaração de Arisa, que, questionada, reconheceu a prevalência masculina no circuito: “As coisas vão mudar, sinto que estamos em um caminho. Precisamos ser fortes e nos apoiar; sinto nos últimos anos um desejo crescente de irmandade”. Em tom propositivo, Arisa sugeriu um nome para ocupar a direção artística no futuro: Elisa.
Como analista cultural, vejo nesse episódio o roteiro oculto da sociedade: um festival que canta também a inquietude contemporânea, uma cena que espelha tensões e esperanças. A palavra feminista, longe de ser um adereço, torna-se um sinal de resistência e de exigência por instituições e atitudes que acompanhem a mudança. Em outras palavras, Sanremo se transforma — por uma noite — em palco de um debate que ultrapassa as notas musicais e traça o mapa de um processo social em curso.
Enquanto as luzes do Ariston se apagam e o público volta ao seu cotidiano, fica a pergunta: que roteiro escreveremos daqui para frente, e quem terá voz para dirigir essa cena de transformação?






















