Uma imagem projetada no palco durante a participação de Gianna Pratesi — a senhora de 105 anos que recordou o voto no referendum de 1946 — chamou atenção não apenas pela carga histórica, mas pelo que foi removido dela: o nome do jornal L’Unità foi coberto por um retângulo branco na versão exibida no Festival de Sanremo.
O original mostra dois homens segurando um jornal com a manchete «Viva la Repubblica», e o cabeçalho do periódico aparece bem visível. Na imagem preparada para a transmissão, porém, o cabeçalho foi apagado. A correção foi notada durante a coletiva de imprensa com Carlo Conti e executivos da Rai, e provocou reações políticas e de mídia imediatamente.
Em defesa, um dirigente da Rai afirmou que se tratou de uma decisão editorial porque o nome do jornal é um brand. Uma justificativa técnica que, no entanto, soou insuficiente para boa parte dos presentes e para quem acompanha a cena política e cultural: se a fotografia é um documento de memória, o ato de apagar um cabeçalho é um recorte do roteiro oculto da sociedade — uma edição que reescreve um fragmento do passado em imagem.
Antes desse episódio havia outra gafe ligada ao mesmo material: uma legenda onde «Repubblica» virou «Repupplica». Agora, o desaparecimento de L’Unità renovou o debate sobre censura, memória e representação pública. A jornalistA e escritora Silvia Garambois denunciou o ocorrido como um exemplo de «cancel culture». O deputado Nicola Fratoianni também reagiu: «Pode accadere che in una trasmissione vi sia una gaffe, ma rimango sbalordito invece per lo sbianchettamento dell’Unità. Ma di cosa hanno paura dalle parti di Telemeloni? I novelli, solerti, e aggiungo ridicoli, censori?», afirmou, ressaltando o desconforto com o que chamou de esforço de apagamento.
Trata-se de um episódio que ultrapassa a mera imprecisão técnica. Em termos culturais, a ação se assemelha a um corte de cena em um filme histórico: ao remover um logotipo, altera-se a narrativa visual e invisibiliza-se um ator simbólico da história política italiana — o jornal que foi órgão do Partido Comunista Italiano. A imagem, que deveria funcionar como um espelho do nosso tempo ao conectar presente e passado, sofreu um reframe que abre espaço para leituras sobre autocensura, cuidado editorial e posicionamento institucional.
Do ponto de vista comunicacional, a justificativa da Rai sobre a proteção de marcas não explica por que a solução escolhida foi a remoção total do nome, em vez de contextualizá-lo. Em um festival tão observador do imaginário coletivo como Sanremo, cada quadro projetado age como um micro-ensaio de memória — e cada apagamento é um sinal para ser interpretado.
O caso também lembra que o trabalho de curadoria histórica exige transparência: quando se edita um documento público, é ética mínima indicar alterações. A decisão de branquear um cabeçalho histórico converteu uma fotografia em peça de debate, e o debate, por sua vez, devolve à imagem outra camada de significado — a da disputa sobre quem decide o que permanece visível no arquivo público.
Em suma, mais do que uma gafe técnica, o desaparecimento de L’Unità no telão do Ariston é um gesto simbólico cujo eco cultural nos desafia a interrogar como instituições audiovisuais tratam a memória e a pluralidade de símbolos políticos. É uma cena que, cortada ou não, continuará a projetar questões sobre identidade, poder e o roteiro da lembrança.
26 de fevereiro de 2026 — cobertura e análise por Chiara Lombardi, Espresso Italia






















