Por Chiara Lombardi — Relembrando uma entrevista de janeiro de 2026 com Renato Franco, reapresentada por ocasião do Sanremo, o comediante Ubaldo Pantani volta a ser personagem na terceira noite do festival, ao lado de Carlo Conti e Laura Pausini. A conversa desenha a trajetória de um artista que transformou o acaso em ofício e a imitação em reflexo social.
O início da carreira de Ubaldo Pantani tem a leveza do imprevisível: um provino com Boncompagni em que lhe pediram para falar sobre o cabaré norueguês e que acabou numa meia hora de improviso, no gelo do capostruttura da Rai, que olhava e se perguntava se ele seria mesmo a escolha certa. Foi assim que nasceu uma prática construída mais no impulso do momento do que numa vocação declarada.
“Eu não sou um imitador: me declaro um comediante que faz imitações”, diz Pantani. Essa distinção é essencial: sua técnica combina voz, semelhança e texto — e, para funcionar, pelo menos uma dessas chaves precisa ser potente. É um pouco como montar uma cena cinematográfica onde luz, som e roteiro compensam-se para entregar a emoção desejada.
Entre histórias de bastidores, surge a anedota com a Gialappa’s Band, que lhe deu apenas uma hora para imitar Materazzi; e o relato de que, quando se irada, sua expressão remete à do treinador Allegri. E ainda: dos elogios mais comoventes que recebeu, veio do jornalista Augias, para quem o trabalho de Pantani capturou algo além do risível.
Nem sempre o riso foi consensual. Pier Silvio Berlusconi confessou não se reconhecer na máscara; Pantani, que pensou tratar-se de uma brincadeira, riu — e só depois percebeu que a observação vinha a sério. Mais contundente foi a reação de Tonio Cartonio, que se sentiu ofendido por uma imitação. “Eu o encontrei no último verão, abracei-o e pedi desculpas”, conta o artista. Foi um gesto que indica tanto responsabilidade pessoal quanto a mudança do cenário cultural: “Naquela época a comicidade não era atravessada pela cultura do ‘woke’ como hoje, então podíamos dizer muito mais”, reflete Pantani. Não se trata de avaliar se era melhor ou pior — trata-se de reconhecer que era outro tempo, outra narrativa.
O seu número mais emblemático, a imitação do Lapo, sintetiza bem a sua poética: inicialmente ancorado nos excessos da vida real, o personagem evoluiu para uma figura quase fantástica — um rico gaffeur cuja ingenuidade o leva a dizer aquilo que os demais evitam. É uma construção que funciona como espelho do nosso tempo: o riso não só caricaturiza, mas revela fissuras no discurso público e na performatividade da riqueza.
No repertório de referências, Pantani imagina o goleiro Buffon com uma musicalidade próxima ao do Urso Yoghi, pela rotação dos fonemas e pela cadência do riso. São observações que demonstram como a imitação é também estudo de timbre, ritmo e arquétipo — elementos que transformam a máscara numa narrativa.
O percurso de Ubaldo Pantani é, ao mesmo tempo, comédia e antropologia: cada personagem é um fragmento do roteiro oculto da sociedade, cada risada um comentário sobre quem nos tornamos. Em Sanremo, seu papel na terceira noite não é só entreter; é lançar um olhar crítico e sutil sobre o que permitimos dizer e sobre o que preferimos fingir que não vemos.






















