Por Marco Severini — Em declaração à imprensa, o chanceler iraniano Abbas Araghchi rejeitou categoricamente as alegações de que o Irã estaria a desenvolver mísseis de longo alcance capazes de atingir os EUA, qualificando tais informações como fake news. A entrevista, concedida ao canal India Today e transmitida nesta quarta-feira, foi realizada pouco antes da partida de Araghchi para Genebra, onde estão previstos diálogos nucleares com delegados americanos.
Segundo o ministro, a República Islâmica optou de maneira deliberada por limitar a autonomia dos seus vetores balísticos a menos de 2.000 quilômetros. A justificativa oficial, repetida com a retórica da autoridade diplomática, é que esses sistemas se destinam exclusivamente à defesa do território nacional e não representam uma ameaça intercontinental. Araghchi afirmou também que, no tabuleiro estratégico da região, o Irã mantém capacidades defensivas para dissuasão, não para projeção global.
Ao traçar a genealogia da desconfiança entre Teerã e Washington, Araghchi fez recuo até a Revolução Islâmica de 1979, que reformulou as relações do país com o Ocidente e com os aliados tradicionais dos Estados Unidos. “Nos últimos 47 anos fomos repetidamente alvo de hostilidades”, disse, lembrando tentativas de golpe, o apoio externo a Saddam Hussein durante a guerra Irã-Iraque, sanções econômicas sucessivas e a política de pressão máxima. Esse legado, afirmou, molda hoje a percepção americana a respeito do Irã.
Araghchi atribuiu parte significativa das narrativas sobre Teerã a fontes externas e campanas de desinformação, apontando diretamente para lobbies que, segundo ele, influenciam o discurso público nos EUA. A crítica incluiu a observação de que ex-presidentes, citando Donald Trump, teriam sido vítimas dessas informações distorcidas.
No plano diplomático, o ministro defendeu um ponto de diálogo claro: a mudança de trajetória nas relações dependerá de um novo enquadramento político norte-americano e de uma abordagem respeitosa dirigida ao povo iraniano. “A única solução é falar com o povo iraniano em linguagem de respeito”, declarou. Neste sentido, Araghchi deixou claro que o país persiste na manutenção de suas capacidades defensivas, enquanto apontou Israel como o ator regional mais interessado na escalada de conflitos — uma acusação que ressoa nas complexas tessituras da tectônica de poder do Oriente Médio.
Como analista, observo que a declaração de Araghchi traduz um movimento calculado no tabuleiro geopolítico: ao negar o desenvolvimento de mísseis intercontinentais e enfatizar limites técnicos — menos de 2.000 quilômetros — Teerã busca simultaneamente reduzir pretextos para novas sanções e preservar uma postura de dissuasão regional. É uma jogada que visa moldar percepções antes das conversações em Genebra, desenhando, de forma sutil, um novo eixo de influência discursiva.
Em suma, a mensagem iraniana é dupla: por um lado, reafirma a natureza defensiva de seu programa balístico; por outro, acusa rivais e influências externas de amplificarem narrativas beligerantes. No jogo das grandes potências, cada declaração é um lance que tenta redesenhar fronteiras invisíveis — e Genebra será o próximo palco para testar se essa estratégia produzirá ganhos diplomáticos concretos.






















